Andrey Gonçalves – Nocturnal Geometries

Estreia discográfica de um proeminente músico do cenário jazzístico de Illinois

Por Luiz Athayde

Jazz… aquele gênero musical que mesmo na beira de 2021 muita gente encara como coisa de “nariz empinado”, de elite. Bom, meio que ainda é isso, se olharmos para a história do mesmo, indo da turma que criou a quem usurpou e, do jeito estadunidense de ser, o tornou mais uma máquina mercadológica.

Na verdade, pior: afro-americanos, progenitores da coisa toda, acharam que se dariam bem nessa e não foi bem o que aconteceu. Mas por mais torta que seja essa introdução, também vale dizer que nem todos que vestem black tie são “malvados”, e muitos, mas muitos mesmo – citação aleatória: Chet Baker, Dave Brubeck, Bill Evans e lista infinita – sabem onde estão pisando, ainda que todo o cuidado se faça necessário em tempos tão caóticos como esse.

Sim, o baixista, professor e compositor Andrey Gonçalves  é um desses que não brincam em serviço e tão pouco dão pontos em nó. Capixaba de nascença, o músico radicado nos Estados Unidos há quase dez anos acabou de fazer sua estreia discográfica, que na verdade é apenas a ponta de um iceberg que não para de crescer.

Andrey Gonçalves (Foto: Guilherme Zils)

Suas credenciais incluem turnês pela Europa, América do Sul e claro, Estados Unidos, tendo tocado com nomes como Frank Gambale, Chuchito Valdés, Alain Broadbent, Willy Thomas, Denis DiBlasio, e no quintal de casa, em Urbana, Illinois: Orquestra Cívica de Champaign-Urbana, Orquestra Sinfônica de Champaign Urbana; além da Orquestra de Sopros Sacred Winds, com violoncelista/cantor pop Ben Sollee e o quarteto de trombones Maniacal 4.

Como músico de estúdio, gravou 27 discos, produziu mais 5 e ainda se aventurou a compor para trilhas de 3 jogos de computador. Só faltava içar o primeiro voo solo, e foi o que rolou. Após muito suor, estresse e momentos de imunidade baixa, enfim saiu  Nocturnal Geometries.

Obviamente ele contou com um time de músicos de primeira, que inclui Ethan Evans (trombone), Robert Sears (trompete), Kurt Reeder (piano), Robert Brooks (sax tenor) e Andy Wheelock (bateria), para registrar suas ideias inconscientemente acumuladas ao longo desses anos de experiência, mas passadas pro papel durante esse esse ano, sob a orientação de seu professor de composição Jim Pugh (Chick Corea, Steely Dan).

O resultado não poderia ser mais assertivo, ainda que soe um tanto hermético para ouvidos mais leigos, mas interessados. A pegada ouvida aqui é contemporânea, na veia da ECM – carimbo germânico especializado em jazz contemporâneo, música clássica e world music –, mas com traços que remetem a uma veia tradicional de mote cinematográfico, embora “Quadrad”, faixa que abre o disco, seja a cara de um Blue Note lotado de entusiastas pelo estilo.

No outro polo, ou melhor, na parte submersa de sua montanha de gelo se encontra o profundo afinco pelas raízes brasileiras, na faixa “Mancada”, onde Andrey usa e abusa do groove, em contraponto com o piano de Kurt e o trompete de Robert.

Como uma espécie de elo perdido entre John Coltrane e Soft Machine, “Waterfall for a Cubist Passion” pinta uma belíssima introdução harmônica para o especialista em contrabaixo acústico brilhar ao longo dos 6 minutos da faixa mais emocional do álbum, e possível ponto alto.

E isso só para citar alguns exemplos de 7 peças instrumentais dotadas de singulares paisagens sonoras, trazendo uma experiência única ao ouvinte, especialmente se for um marinheiro de primeira viagem.

Outro atrativo é a bela capa, assinada pelo fotógrafo Jeff Janczewski, mostrando que mesmo em tempos de lançamentos digitais, a parte estética ainda se faz importante. Ponto para a música de qualidade.

Ainda:

+ Nocturnal Geometries foi gravado por Derick Cordoba nos dias 18 e 19 de janeiro desse ano no estúdio Unit One, em Urbana, estado do Illinois, Estados Unidos.

+ Quem assina a mixagem é Joe Corley, diretamente do Pint Size Studios; já a masterização foi feita por Johns Tubbs via Jetman Music Services.

+ Andrey Gonçalves também integra a brigada latin jazz The Afro-Caribbean Jazz Collective, que também fez estreia discográfica em 2019 com o autointitulado EP.

Ouça Nocturnal Geometries no Spotify.

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