Entrevista Pete Johansen: “O Gothic/Doom não morreu, mas se tornou um pouco chato”
Foto: Frog Leap Studios

Entrevista Pete Johansen: “O Gothic/Doom não morreu, mas se tornou um pouco chato”

Conversamos com o mago norueguês dos violinos da esfera metálica

Por Luiz Athayde

Pete (Per Oscar) Johansen é o que podemos chamar de Bukowski da música; faz o que quer, quando quer, com quem escolhe trabalhar e, ainda assim, com um grau de disciplina necessário para registrar sua marca nos discos que grava.

Norueguês de formação erudita, mas de alma punk, Johansen acabou fazendo nome como violinista na onda Gothic/Doom Metal que assolou parte do mundo entre os anos 90 e o começo do novo milênio.

E foi esse e outros assuntos que o Class of Sounds abordou nesse bate-papo regado a entusiasmo e claro, boas curiosidades! Confira.

Olá Mr. Johansen! É um prazer imenso poder  fazer essa entrevista contigo. Vou começar com uma pergunta inevitável: como você está sobrevivendo à pandemia?

Pete Johansen: Oh… como a maioria das outras pessoas na Noruega, eu acho, estamos muito satisfeitos com a forma como nosso governo está lidando com isso, e mesmo sendo muito poucos shows e muito pouca gente autorizada a assistir aos poucos que existem, eu acho, como a maioria das pessoas aqui, isso é necessário. Os resultados são bons, a Noruega é um dos países com a menor taxa de mortalidade do mundo.

Nem guitarra, nem baixo, nem bateria: violino. Quando você descobriu que este seria o seu instrumento principal?

Pete Johansen: Quando eu tinha nove anos. Eu tocava piano havia três anos e quis experimentar violino. Toquei música clássica até me juntar a uma banda em turnê, Bernad Jenkins, quando tinha dezesseis anos.

Foto: Pål Christensen

Seu processo criativo na hora de compor mudou com a pandemia da Covid-19 ou continua o mesmo? O que te inspira?

Pete Johansen: Ah … o lockdown me dá mais tempo para escrever e gravar, pois os shows estão sendo cancelados o tempo todo… Então lancei o último álbum da trilogia do The Scarr, e já gravei um álbum instrumental com uns especialistas em jazz onde toco violino e piano, e agora estou gravando um novo álbum com minha banda, uma de minhas bandas, Rhinos. Eu me inspiro muito em tudo na vida, boa, ruim, tudo acaba virando música!

O novo álbum do The Scarr ‘Future Noize’ não tem absolutamente nada a ver com heavy metal. Pelo contrário, soa mais como um jazz esquizofrênico, cheio de nuances experimentais. O que o levou lançar algo tão diferente?

Pete Johansen: Eu compus muito metal de todos os tipos e queria fazer algo completamente diferente. Eu sempre ouvi muito jazz e música clássica, e também rock progressivo como Frank Zappa, Mahavishnu Orchestra e PFM [Premiata Forneria Marconi], então me pareceu natural fazer isso agora. Estou bastante satisfeito com o resultado!

Essa será a linha musical a ser seguida daqui em diante?

Pete Johansen: Oh… Eu já mencionei que o jazz está por vir, mas o álbum do Rhinos está mais para blues e country, então acho que sou apenas um marinheiro louco longe no mar da música sem direção! Nunca tentei ser muito comercial, e todas as coisas que venderam muito foram com outras bandas, como [The] Sins [Of Thy Beloved] e Tristania, e isso é legal também, mas tento não pensar muito sobre o tipo de música que eu faço, eu amo absolutamente todos os tipos de música, contanto que seja bom que seja…

Em 2011 você lançou o excelente álbum solo ‘It’s Been Real’, com uma sonoridade mais folk. Já em 2014 foi  ‘You Don’t Know Me’, com uma pegada eletrônica/experimental, e por fim, em 2017 foi a vez de ‘Home’, do qual você volta às suas raízes country. Há planos para mais discos sozinho?

Pete Johansen: Sim! Acabei de receber sinal verde da gravadora para entrar em estúdio no início de 2021, e gravar um novo álbum solo, vai ser mais voltado para o rock, eu acho, mas sempre misturo todos os tipos de estilos em meu trabalho, então acho que vai ter todos os tipos de faixas nele!

Pete em ação (Reprodução/Sølve Friestad)

Você é conhecido no cenário metálico sobretudo por ter gravado discos com bandas de Gothic/Doom Metal, que teve seu auge entre o final da década de 90 e começo dos 2000. Na sua opinião, esse estilo está morto ou ainda rende bandas boas?

Pete Johansen: Bem… Eu ainda faço muitas gravações para bandas nesse estilo, mas acho que não está mais perto do mainstream como você diz… O gênero não está exatamente morto, mas se tornou um pouco chato, talvez… Eu fiz dois álbuns com a banda americana de metal extremo Azure Emote, que foi a que me deixou mais satisfeito de todas as bandas de metal com as quais trabalhei nos últimos anos.

Uma de suas passagens mais marcantes foi no The Sins Of Thy Beloved, que fez sucesso no underground brasileiro, especialmente por causa do video ‘Perpetual Desolation Live’. Você ainda tem contato com os ex-integrantes?  Se sim, há alguma chance da banda voltar?

Pete Johansen: Mantemos contato e talvez eu faça algum trabalho para o projeto do [baterista] Stigs [chamado] Mørke, já falamos sobre isso e há conversas sobre tocar ao vivo juntos em alguns festivais aqui na Noruega no ano que vem, o tempo vai dizer.

Você sente falta daquele período de turnês com a banda? Estar na estrada era mais divertido ou cansativo?

Pete Johansen: Não, eu não sinto falta de fazer turnês. Eu odeio isso. Amo fazer shows, mas viajar é enjoativo para mim. E eu ganho mais dinheiro tocando na Noruega, principalmente perto de onde moro, na costa sudoeste da Noruega.

Seu currículo é tão grande quanto diversificado. Por isso listei abaixo algumas bandas para você comentar a importância delas na sua carreira ou mesmo revelar alguma curiosidade. Pode ser?

Pete Johansen: Sim, claro!

Tristania

Pete Johansen: Eu amo Tristania. Amei a voz da Vibeke e gravar com eles sempre foi divertido e desafiador. Na verdade, a primeira vez que excursionei com eles foi depois do álbum Rubicon em 2012, antes disso eles apenas usavam samples das minhas partes quando tocavam ao vivo. Esperamos que eles venham para a América Latina no próximo outono, infelizmente sem mim. Eles são queridos amigos e grandes músicos e eu adoro todos os quatro álbuns que fizemos juntos!

The Sins Of Thy Beloved

Pete Johansen: Claro, a banda mais próxima do meu coração. Fizemos dois álbuns brilhantes juntos e tocamos tanto ao vivo que soamos realmente bem em cada show. Tantas boas recordações!

Foto rara do The Sins Of Thy Beloved com Pete Johansen lá no fundão “detestando turnês”.

Morgul

Pete Johansen: Um verdadeiro gênio! Infelizmente, a maioria das pessoas nunca descobriram seu brilhante trabalho, mas estou orgulhoso de ambos os álbuns!

Sirenia

Pete Johansen: Sim… Eu entrei no Sirenia logo no início, porque o Morten [Veland, vocalista e guitarrista] saiu da Tristania, ele é um músico e compositor brilhante! Trabalhei com o Tristania e o Sirenia ao mesmo tempo, mas no meio da turnê europeia após o primeiro álbum decidi voltar para casa, acho que o Morten nunca me perdoou por isso, e ele está certo em se sentir assim. No entanto, desejo a ele tudo de melhor.

The Tramps

Pete Johansen: Sim. Minha principal renda por muitos anos durante os anos 90, tocando Whiskey in the Jar cinquenta vezes por semana durante anos e anos… Fizemos três ótimos álbuns juntos, e aquelas faixas antigas ainda são tocadas [via streaming] milhões de vezes por ano! Então isso ainda me traz dinheiro! Ótimos amigos e ótimos músicos!

Modesty Blaise

Pete Johansen: Passamos ótimos anos lançando três álbuns e fazendo excursionando na Noruega e eu estava no comando, tanto criativamente quanto em outras coisas, o que não é bom para nenhuma banda! Ha ha… Transar com as meninas do coral também não é uma boa ideia (risos).

Independente do estilo musical na sua discografia, percebe-se a marca deixada pelo som do seu violino. Essa assinatura é desde seus primeiros dias tocando esse instrumento ou foi algo adquirido com o tempo?

Pete Johansen: Oh… Espero que ainda haja alguma marca, mas é claro que fica mais difícil para cada gravação encontrar novas ideias, outros podem julgar o quão bem eu lido com isso!

Um jovem Pete Johansen no Håbet Festivalen, em Sandness, Noruega, 1979 (Reprodução)

Pelo que sei seu gosto musical é bem variado e sem fronteiras. Conhece ou gosta de algum artista brasileiro?

Pete Johansen: É claro! Eu amo Sepultura! Eu acho que é uma resposta chata, mas eles são realmente uma das bandas mais importantes da história do metal! Já fiz algumas gravações para uma banda brasileira chamada Tayo e outras que não lembro o nome, desculpe…

Para finalizar, gostaria que listasse 3 discos que sempre estarão com você e 1 que jogaria no lixo.

Pete Johansen: 1. Demons and Wizards  (Uriah Heep);
 2. Sgt Pepper  (The Beatles);  3. Machine Head (Deep Purple). Lixo: Conquest (Uriah Heep)
.

Se você se refere aos meus próprios álbuns:  1. Face of the Sun  (Modesty Blaise); 2. Home (solo); 3. Lake of Sorrow  (TSOTB). Lixo:  No e d jul ijen  (DDE).

Mais uma vez muito obrigado pela entrevista! Fica o convite para visitar o Brasil quando a pandemia acabar! Assim esperamos. Considerações finais? O espaço é todo seu.

Pete Johansen: Obrigado pelo convite! Nunca estive em seu maravilhoso país, o mais próximo que cheguei foi no México há vinte anos! Obrigado por ótimas perguntas! Tudo de bom.

Foto: Pål Christensen

Pete Johansen interview: “The Gothic/Doom is not dead, but have become a bit boring”

We had a conversation with the Norwegian violin wizard of the metallic sphere

By Luiz Athayde

Pete (Per Oscar) Johansen is like Bukowski of music: he plays whatever, whenever, and with whoever he wants to. In order to do this, he displays high standards of discipline to print his trademark in each album he records.

Norwegian, classically trained, punk-oriented soul, he ended up building part of his career as a violinist of Gothic/Doom Metal, styles that were prominent in the 90s and at the beginning of the new millennium.

Check out more details about this amazing musician in this Class of Sounds interview. Enjoy!

Hello Mr. Johansen! It is a great pleasure to interview you. Let’s begin with a question I consider to be “unavoidable”: how are you dealing with this pandemic crisis?

Peter Johansen: Oh… like most others in Norway, I would think, we are very satisfied with how our government is dealing with it, and even thoug it’s very few concerts and very little people allowed to attend the few there is, I think, like most people here, that it’s necessarry. The results are good, Norway is one of the countries with lowest deathrate in the world.

No guitar, no bass, no drums… but a violin. When did you find out that the violin was your thing?

Pete Johansen: When I was nine years old. I had been playing the piano for three years then, and wanted to try the violin. I played classical music till I joined a touring band, Bernad Jenkins, when I was sixteen.

Pete Johansen (Photo by Sølvberget)

Has your creative process changed during the Covid-19 pandemic or has it been the same as before? What does inspire you overall?

Pete Johansen: Oh… the lockdown gives me more time to write and to record, since shows are being cancelled all the time…  So I released the last album in the The Scarrtriology, and already has recorded an instrumental album with jazzimpros where I play violin and piano, and now I’m recording a new album with my band, one of my bands, Rhinos. I’m really inspired by everything in life, good, bad, it all becomes music in the end! 

The new Scarr’s Future Noize album has absolutely nothing to do with (traditional?) heavy metal music. On the contrary, it sounds more like free jazz with experimental nuances. What inspired you to take this route and release such a different material?

Pete Johansen: I have done so much metal of all sorts and wanted to do something completely different. I have allways lisstened a lot to jazz and classical music, and also progressive rock like Frank Zappa, Mahavishnu Orchestra and PFM [Premiata Forneria Marconi],, so it felt natural for me to do this now. I’m quite satisfied with the result!

Is this your musical aesthetic something you will continue to do in the coming albums?

Pete Johansen: Oh… I allready mentioned that forthcoming jazzimprothing, but the Rhinosalbum is more about blues and country, so I guess I’m just a mad sailor far out on the sea of music without a compass! I have never tried to be very commercial, and all the big selling stuff I’ve done have been with other bands, like Sins and Tristania, and that is fun too, but I try not to think too much about what kind of music I make, I love absolutely all kinds of music, as long as it’s good that is… 

“It’s Been Real” (released in 2011) is an excellent solo album, with a folk-oriented aesthetic. The 2014 album “You Don’t Know Me” converges more towards electronic/experimental music. In 2017, you released “Home” which explores your country music roots. Do you plan on releasing more solo albums?

Pete Johansen: Yes! I just got the green light from the recordcompany to go in studio early 2021, to record a new solo-album, it’s gonna be more rock oriented, I think, but I always blend all kinds of styles into my work, so I guess it’s gonna be all kinds of tracks on it!

Pete ‘Industrial’ Johansen and The Scarr (Photo Credits: Pete Johansen)

You are known in the metal scene because you recorded with Gothic/Doom Metal bands, most of them reaching the mainstream at the end of the 90s and beginning of the 2000s. In your opinion, do you believe these music styles are dead, or do they still generate good bands?

Pete Johansen: Oh well… I still do quite a lot of recordings for that kind of bands, but I guess it’s no longer close to the mainstream as you put it… The genre is not exactly dead, but have become a bit boring maybe… I have done two albums with american extreme metal act Azure Emote wich I am most satisfied with of all the metal bands I have worked with in later years.  

You produced some of your most remarking works with The Sins Of Thy Beloved. This band was very successful in the Brazilian underground scene because of the “Perpetual Desolation Live” home video. Are you still in touch with the band members? Is there any chance you will compose music together in a near future?

Pete Johansen: We keep in touch and maybe I’ll do some work for Stigs project Mørke, we have talked about it, and there’s talk about performing live together on a couple of festivals here in Norway next year, time will show.

Do you miss touring? Do you think touring is overall more fun or more exhaustive?

Pete Johansen: No, I don’t miss touring. I hate it. I love to give concerts, but the travelling is sickening to me. And I make more money giving concerts in Norway, mostly right around where I live on the south west coast of Norway. 

You have such a long and diverse career. So, I have listed some bands below and I would like to know how important they were in your music path. Is there any interesting fact about them? Are you ok with answering this?

Pete Johansen: Yes, of course!

Tristania

Pete Johansen: I love Tristania. I loved Vibeke’s voice and to record with them was always fun and challenging. As a matter of fact, the first time I toured with them was after the Rubicon album in 2012, before that they just used samples of my strings when performing live. They are hopefully coming to latin america next fall, alas without me. They are dear friends and great musicians and I love all the four albums we have done together!

The Sins Of Thy Beloved

Pete Johansen: Of course the band closest to my heart. We made two brilliant albums together and played so much live together that we sounded really good on each concert. So many good memories! 

Pete Live (Photo Credits: Facebook)

Morgul

Pete Johansen: A true genius! Alas most people never discovered his brilliant work, but I am proud of both albums!

Sirenia

Pete Johansen: Yes… I joined Sirenia right from the start, because of Mortens leaving Tristania, he is a brilliant musician and composer! I worked with Tristania and Sirenia at the same time, but in the middle of the european tour after the first album I decided to leave for home, I guess Morten never forgave me for that, and he’s right to feel that way. I wish him all the best however.

The Tramps

Pete Johansen: Yes. My main income for many years during the nineties, playng whiskey in the jar fifty times each week for years and years… We made three great albums together, and still those old tracks are streamed millions of times each year! So that still brings me money! Great friends and great musicians!

Modesty Blaise

Pete Johansen: We had some great years releasing three albums and touring Norway and I was in charge, both creatively and elsewise, wich is not a good thing for any band! Ha ha… Screwing the choir girls is not a good idea either (laughs).

It does not matter the music style; it is noticeable that you leave an amazing footprint with your violin in every single recording you do. Have your playing and musical approach always been like this or have you developed it throughout the years?

Pete Johansen: Oh… I hope there’s some development still, but of course it gets harder for each recording to find new ideas, other may judge how well I cope with that!

Pete live with Tristania (Photo by Pete’s Official Page)

I know you have a very wide and diverse musical taste. Do you know or do you like any Brazilian artist/band?

Pete Johansen: Of course! I love Sepultura! I guess that’s a boring answer, but they are truely one of the absolutely most important bands in the history of metal! I have done some recordings for a brazilian band called Tayo and some others I can’t remember what is called, sorry…

To end this interview, I would like to ask you to list 3 records that will always be with you and 1 record that you would throw in the trash can.

Pete Johansen: 1. Demons and Wizards (Uriah Heep);  2. Sgt Pepper (The Beatles); 3. Machine Head (Deep Purple). Trashcan: Conquest (Uriah Heep).

If you meant own albums:  1. Face of the Sun (Modesty Blaise);  2. Home (solo); 3.Lake of Sorrow (TSOTB). Trashcan: No e d jul ijen  (DDE).

One more time, thank you so much for this interview. I will leave here an open invitation for you to visit Brazil after this pandemic crisis is over. I really hope you do! Any final comments? The floor is yours.

Pete Johansen: Thanx for that invite! Never been to your wonderful country, closest is Mexico twenty years ago!  Thanx for great questions! All the best, your friend, Pete.


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Entrevista/Interview: Luiz Athayde
Revisão/Text Revision: Andrey Junca
Fotos/Photo: Reprodução/Pål Christensen

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