Você Precisa Ouvir: Love Like Blood – Chronology of a Love-Affair (2001)

A história do gótico em uma novela musicada em 16 importantes capítulos… ou “4 temporadas

Por Luiz Athayde

Existem algumas bandas e artistas que possuem uma capacidade ímpar de ganhar tempo lançado compilações seminais nas entressafras de seus álbuns de estúdio. Não apenas pela seleção das faixas, mas pela qualidade em si – nem tudo é ‘hit’ nos ‘greatest’ lançados. E uma seleta ainda mais fechada consegue fazer suas coletâneas parecerem álbuns de inéditas, vide The Smiths com Hatful of Hollow (1984) e Morrissey em seu sortido Bona Drag (1990). Mas um grupo merece destaque por ter ultrapassado a fronteira das coletâneas e adentrado em um terreno mais danoso e ainda ter dado certo: Love Like Blood.

Pior que coletâneas de hits sem nenhum atrativo são os álbuns de covers. A quantidade de bandas que lançaram mão desse artifício e tiveram seus discos largados no ostracismo não cabe no gibi, mas o sétimo e até então último disco da banda formada em 1989 na cidade alemã de Geislingen é até hoje lembrado por muitos como um de seus melhores trabalhos. Chronology of a Love-Affair é uma novela musicada em 16 partes onde o gótico é o protagonista e os personagens reais são as bandas que serviram de base para moldar o caráter musical dos irmãos Yorck (vocais) e Gunnar Eysel (baixo, teclado, sampling), assim como Timo Deininger (guitarras), Alexander Schädler (guitarras) e Alex Sauer (bateria).

Yorck e Gunnar Eysel

Gravado no House of Music Studios em Winterbach, Alemanha, o disco teve natural envolvimento direto dos irmãos Eysel, com Gunnar assinando a produção, e metendo o dedo nas mixagens juntamente com Yorck e com o engenheiro de som Achim Köhler. São versões com gênese em 1980 e encerramento no ano 2000, dividido em 4 “temporadas”: 1980-1985, 1986-1990, 1991-1995 e 1996-2000. Sob esse conceito, um cuidado nos arranjos que rendeu uma atmosfera totalmente particular, para não dizer “autoral”, já que o álbum soa como se fosse uma extensão natural do que vinham fazendo no excelente Enslaved + Condemned, de 2000.

A abertura, mais digna impossível. “Decades”, do Joy Division introduz um canto gregoriano antes do dueto feito por Yorck e a vocalista Olimpia S. Casa, especialmente neste disco, comandarem o restante da canção, com um novo arranjo para a bateria. Exceto pelo groove, “She’s in Parties” (Bauhaus) não sofreu grandes alterações, se garantindo como uma das mais diretas do disco, seguindo mais ou menos a mesma linha para “A Strange Day” do The Cure, mas em um mote ainda mais soturno.

A segunda parte da novela gótica já chega metendo o pé nos seminais do deathrock Christian Death em uma empolgante versão de “Church of no Return”, e engatam com a pesada “Wasteland” do The Mission. Partindo para o lado mais melódico, os alemães anunciam a chuva com um dos maiores clássicos do The Cult, “Rain”, e encerram com um céu vagamente limpo em “April Skies” do The Jesus And Mary Chain. A década de 90 chega e com ela os sintomas do estado das coisas; a redonda “Love Under Will” do Fields Of The Nephilim na verdade abre espaço para os próprios em “Injustice”, disparado uma das melhores canções de toda a discografia do Love Like Blood, mas é na música que deu o nome do grupo que está o brilho. “Love Like Blood” vem com todos os ventos trazidos pelo Killing Joke, mas em temperaturas consideravelmente baixas, fazendo desta a versão mais densa do álbum. Aliás, Jaz Coleman estaria orgulhoso se sacasse a nova roupagem feita pelos alemães.

A partir daí (algumas), faixas que não necessariamente se esperavam em uma seleta gótica, até você perceber que tais bandas estão em boas mãos. Entre o fim dos anos 1990 e começo dos 2000, os ingleses do Paradise Lost estiveram mergulhados em águas turvas que envolviam gótico, synthpop e o rock alternativo, mas foi uma faixa da sua era doom que o Love Like Blood escolheu para documentar a trama; “True Belief” é tão arrastada quanto a original, mas com um upgrade dark que só os Eysel poderiam fazer. Já na última temporada, “Copycat” foi outra com uma roupagem completamente diferente. Ao contrário da rispidez da banda de Tilo Wolff, a releitura para essa grande música do Lacrimosa tomou ares mais densos e quase clássicos.

Na sequência, “Black Nº.1”. Quem conhece a obra do Type O Negative sabe que, por ser uma banda singular, esboçar qualquer sinal de versão é uma tarefa bem arriscada. Mesmo assim, o grupo se saiu bem, já que o objetivo aqui desde o início era fazer uma leitura pessoal das bandas homenageadas. Talvez a grande surpresa tenha sido “Whatever That Hurts” do Tiamat, mesmo no fundo sendo algo óbvio – em tempo: a psicodelia é uma influência comum entre as duas bandas; basta ouvir Wildhoney (1994) dos suecos e a seleta Swordlilies (1997) dos alemães – deixa evidente o lado slow motion da banda. Em contrapartida, encerram com a alternativa “Great Big White World”, de um dos artistas do mainstream que mais trocaram ideia com a estética e a bizarrice do dark, Marilyn Manson.

Você precisa ouvir Chronology of a Love-Affair por ser um registro quase antropológico e um retrato de como se encontrava a cena gótica no começo dos anos 2000; os medalhões Peter Murphy, The Mission, The Sisters of Mercy e The Cure – esse último imune a movimentos por sempre ter sido alternativo dentro de sua própria esfera – se virando como podiam, e os que não aconteceram, agonizando em alguma sarjeta underground até ressurgirem, ainda imundos, a partir de 2010 com relançamentos e shows comemorativos. E também pela escada que é ao te levar aos compositores originais, caso você não os conheça.

Yorck Eysel (Foto: Marquis X)

Cronologia da Informação:

+ A banda esteve ativa entre os anos 1989 e 2001, e fizeram uma única aparição em 1999 no festival Wave-Gotik-Treffen em Leipzig e outra no dia 23 de julho de 2011 em Kortrijk, Bélgica. Desde então, encontram-se em um hiato indefinido.

+ As versões feitas como as do álbum ‘Chronology of a Love-Affair’ não é algo novo no Love Like Blood. Em 1993 a banda lançou um Split single com o The Merlons of Nehemiah onde tocam “Heroes” (David Bowie), e em 2000 no álbum ‘Enslaved + Condemned’ fizeram uma releitura para “Seven Seconds” de Youssou N’Dour & Neneh Cherry.

+ ‘Chronology of a Love-Affair’ teve licenciamento via carimbo Hall Of Sermon em somente três países: Suiça, Russia, China e Brasil, que saiu pela Hellion Records.

Ouça Chronology of a Love-Affair :

https://open.spotify.com/album/3UeHt5tOA29dBYBJ5IjE4q

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