Você Precisa Ouvir: Biosphere – Substrata | Man With A Movie Camera (2001)

Você Precisa Ouvir: Biosphere – Substrata | Man With A Movie Camera (2001)

A união perfeita de cinema direto e música verdadeiramente ambiente

Por Luiz Athayde

Uma das coisas mais legais do cinema mudo é justamente poder imaginar como seriam determinadas cenas com áudio; sejam ruídos ou música. Os dois. E não é nenhuma novidade que algumas produções antológicas ganharam versões para alcançar os ouvidos dos espectadores.

É o caso de Tchelovek s kinoapparatom, de 1929; título original de ‘Um Homem Com Uma Câmera’, do cineasta soviético Dziga Vertov.

Considerado um marco do cinema do período Lênin, o filme documenta a União Soviética sob o prisma singular de um experimentalista que arquitetou sua ruptura definitiva com a literatura e o teatro, gerando o Cinema Direto – gênero documental que visa captar, sem intenção didática, ilustração histórica ou interferência do cineasta, a realidade tal e qual ela é, ou seja, reproduzir exatamente aquilo que acontece.

Geir Jenssen (Foto: Reprodução/Facebook)

Há uma versão jazz para essa produção, mas quem conseguiu, digamos, dar maior profundidade sensitiva foi o músico norueguês Geir Jenssen. Natural da minúscula cidade de Tromsø, seu nome circulou mais no subterrâneo ethereal wave com o Bel Canto em sua seminal fase inicial, tendo gravado os álbuns White-Out Conditions  (1987) e Birds of Passage  (1989).

Mas tão logo após sua saída ele percebeu que sua sina era desafiar novos ouvintes migrando para novas sonoridades. Foi daí que, em 1991 nasceu o sugestivo projeto  Biosphere. Na verdade, a linha do tempo compreendida até 1994 é mais voltada para o techno e o downtempo, por vias dos seus dois primeiros álbuns de estúdio Microgravity  (1991) e Patashnik  (1994).

Em 1997 ele percebe que sua pegada está bem ao seu redor. Substrata entra em degelo por chancela da Touch Records em junho daquele ano, abrindo um caminho sem precedentes para usufruir do que a natureza local poderia lhe proporcionar.

O primeiro álbum verdadeiramente ambient é envolto a uma atmosfera fria, com sons de pássaros, ventos uivantes, água corrente, madeira rangendo, montanhas e geleiras; intercaladas por melodias etéreas e nuances carregadas de suspense, além de certa dose de bad trip do tipo: “Que lugar é esse? Onde eu vim parar?”

Com todo esse background – incluindo seus lançamentos subsequentes –, ninguém melhor que Jenssen para ajudar a expandir as sensações de quem adentra na obra do documentarista. Man With A Movie Camera  sai em 2001 como CD bônus do agora Substrata², pela mesma gravadora , ainda contendo mais duas faixas outrora exclusivas para o Japão (“The Eye Of The Cyclone” e “Endurium”) e outra bônus de edições anteriores (Laika).

Cartaz do filme Um Homem Com Uma Câmera (1929)

De “Prologue” à “Ballerina”, o registro sônico de Geir penetra no cotidiano das cidades então soviéticas de Moscou, Odessa e Kiev, com seus habitantes em momentos de lazer, mas sobretudo de trabalho, em meio a uma quase colagem de cenas abruptas com máquinas e fábricas, cidades em movimento, animação stop-motion e corpos sensuais, como uma radiografia da produção em massa, mas também de como consumimos imagem.

Nesta trilha assinada pelo norueguês, é como se tudo já estivesse ali, feito sob medida, apenas esperando para se encaixada (bom, 72 anos para ser exato) entre o fotograma e as perfurações da película.

Você precisa ouvir (e assistir!): Substrata  e  Man With A Movie Camera  porque são registros que trouxeram algo novo para a ambient music, permitindo uma experiência mais cinematográfica e menos meditativa, e claro: podendo absorver o filme de uma outra maneira.

Dziga Vertov em 1934 (Foto: Reprodução/ Austrian Film Museum)

Mais informações geladas:

+ Substrata é considerado um clássico da música ambiente, sendo constantemente um dos discos mais procurados nas pesquisas da lista do site especializado Hyperreal.

+ Em Substrata foi ranqueado na 38ª posição na lista dos 50 Melhores Álbuns Ambient de Todos os Tempos do site Pitchfork.

+ A fala na faixa “The Things I Tell You” foi extraída da série Twin Speaks (1º episódio da segunda temporada) do encontro com o gigante e o agente Dale Cooper. Outra fala extraída do mesmo episódio acontece em “Hyperborea”, na cena do Major Briggs explicando sua visão ao seu filho Bobby.

+ Ainda sobre samples, “Kobresia” traz trecho de um documentário sobre o telepata russo Karl Nikolaev.

+ Um Homem Com Uma Câmera foi eleito pela revista britânica especializada em cinema Sight & Sound como o oitavo melhor filme de todos os tempos.

+ Antes de lançar a obra mais experimental e revolucionária de sua filmografia, Dziga Vertov (nascido Denis Arkadievitch Kaufman em 2 de janeiro de 1896 em Byalistok, Polônia) integrou o Conselho dos Três (Soviet Troikh), que deu origem ao movimento Kinoks. Juntamente com a cineasta e esposa Elizaveta Svilova (responsável pela edição de Um Homem Com Uma Câmera) e seu irmão Mikhail Kauhfman, escreveram o manifesto Kinoks: uma revolução, publicado em 1923 na revista da Frente Esquerda de Artes.

Assista Um Homem Com Uma Câmera no Youtube.


Ouça Substrata² no Spotify.

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