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Danilo Ferraz (Volapuque) faz estreia discográfica e lisérgica com “Sábado”

Artista radicado no Espírito Santo se valeu do contexto pandêmico para dar vida a músicas até então guardadas

Por Luiz Athayde

E pelo visto esse negócio de psicodelia continua rendendo. Quando a gente acha que a cartela de doce está no fim, eis que surgem outras mais; seja na Austrália, Europa, ou no Brasil. Sendo mais específico, Espírito Santo, com Danilo Ferraz.

Danilo Ferraz (Foto: Lorenzo Savergnini)

Figura conhecida há longos anos no subterrâneo local, o carioca, palmeirense, mas sobretudo cria dos bares de gosto questionável da Grande Vitória, já integrou várias formações, pisou em muitos palcos e até lançou livros, mas faltava um voo solo no âmbito discográfico. E muitas, muitas semanas depois, enfim, chegou Sábado.

O registro é composto por músicas que se encontravam engavetadas por não terem sido usadas em seus outros projetos, como o pós-punk/alternativo Volapuque – sua banda principal, que inclusive conta com o ex-Mukeka di Rato, Sandro Juliati, nos vocais.

E qual a melhor oportunidade para impedir que composições ganhassem ainda mais camadas de poeira? A pandemia. Valendo-se disso, o cantor, compositor e multi-instrumentista escolheu trabalhar 10 faixas, trazendo Bernardo John da banda Auri para cuidar da produção.

O disco também é recheado de participações especiais de músicos e artistas do cenário capixaba, incluindo o saxofonista Salsa Brezinski, o cantor e compositor Juliano Gauche, o flautista Iago Tartaglia (Gastação Infinita), o tecladista Mario Schiavini, o percussionista Zé Tom, o baterista Douglas Helmer, o violinista argentino Martnino Paz e, por último, mas longe de ser menos importante, a atriz e diretora cênica, Roberta Portela, que recita o poema e faixa de abertura “Amanheceu”.

Musicalmente, especialmente no perímetro nacional, em que a mistura já é algo intrínseco, carimbar um disco como psicodélico pode soar limitado, tendo em vista que as influências de Ferraz expostas aqui, ainda que essencialmente direcionadas aos anos 60, se sobressaem a possíveis ordens temporais. Um bom exemplo está logo no começo; “Cores do Lugar” simula aquela coisa inglesa, mas como se feita partindo de uma ótica não tão distante de um Madchester.

Já “Corpo Vela” revela o subconsciente ‘metaleiro’ de Danilo, ao se relacionar acusticamente (e não intencionalmente, diga-se) com “Dante’s Inferno” do, pasme, Iced Earth. Mas para por aí. Logo na sequência, chega “Samba das Luzes” com todo o balanço que a música brasileira pede, mas dando também uma luz de como seria a sonoridade das nossas bandas hippies dos anos 70 caso tivessem tido a chance de serem bem produzidas.


“Qualquer Doce” é quase auto-explicativa, e também um retorno àquele momento da década de 90 em que o Ride saía de cena e o Supergrass começava a tomar de assalto o universo do chamado britpop. É talvez a mais rock do álbum, e com uma certa pegada radiofônica, mesmo com todo o seu experimentalismo.

O cineasta chinelo Alejandro Jodorowsky ganhou uma pequena, mas bela homenagem indiana em “Um Raga para Jodô”. Sua trip é curta, mas conduz o ouvinte direto para a (faixa seguinte) “Rua Sete”, onde Ferraz carimba seu lado mais melodioso, guiado pelo prisma de Arnaldo Baptista, uma de suas referências magistrais. “Telúrica” abre mais um poema, agora estrelado por Gauche. O instrumental que se segue é extremamente melódico, envolvente e tão elétrico quanto a corrente homônima.

Caminhando para o desfecho, “Trem de Aquário”; espécie de Krautrock à brasileira, ou Neu! e Faust fazendo um curso intensivo com Hermeto Pascoal e Naná Vasconcelos. Experimentar no meio de flertes e abordagens pop é um negócio arriscado, mas aqui deu certo; cortesia da sintonia entre Ferraz, Schiavini e Tom, garantindo certa “sanidade” no percurso de quase 12 minutos de duração.

No que tange a lisergia, é praticamente um pecado mortal não citar Beatles. E para quem, em um passado distante, já integrou banda cover daquele pessoal de Liverpool, nada como fechar com uma canção como a “Dia de Chuva (The End)”.

Mas é como o próprio músico disse, se trata de uma “sinfonia de bolso no sentido de reunir pequenos temas em uma unidade”. Embora um adendo se faça necessário: são músicas que se expandem de acordo com o grau de imersão do ouvinte, e é aí que está a sacada do álbum; feito em vários sábados, mas para ser absorvido por toda a semana.

Sábado saiu sob chancela dos carimbos Mantra Records e Chinelada Records, e em breve estará disponível em CD. Ouça abaixo, pelo Spotify.

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Este post tem 3 comentários

  1. Julio Caldeira

    Disco foda e resenha foda! Na minha humilde opinião, “Bares de gosto questionável da Grande Vitória” ou apenas “Bares questionáveis” pode ser o título do próximo álbum de Danilo… Uma saga meio “Clara Crocodilo”, de Arrigo Barnabé e banda Sabor de Veneno, ou “Santa Clara Poltergeist”, de Fausto Fawcett, ou até mesmo “Eu sou o Rio”, da Black Future, só que tendo a Grande Vitória como cenário da narrativa pós-caótica-pseudo-poética-neo-dadaísta-póstuma-rococó!

    #ficaaíadica

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