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Trentemøller – Memoria

As entidades sônicas dos anos 90 baixaram no renomado produtor dinamarquês

Por Luiz Athayde

E olha só quem chegou com disco novo: Trentemøller. Conhecido como um dos ases modernos da música eletrônica, o músico e produtor dinamarquês chega na classe de 2022 sucedendo o elogiadíssimo Obverse, de 2019, e com uma distância que vai além da temporal.

Não que ele tenha deixado de navegar pelas águas seguras das variantes eletrônicas dos clubes noturnos, mas seu novíssimo álbum, Memoria, é mais expansivo. E como.

Anders Trentemøller e os formatos de ‘Memoria’ (Foto: Reprodução/Facebook)

Na verdade, ele surpreende logo de cara com uma abordagem ‘slowdiveana’, na abertura “Veil Of White”. Só daí a audição já se mostra interessante. Mas é na faixa seguinte, “No More Kissing In The Rain”, que você se dá conta que a pegada vai pelos anos 90. Cortesia da artista Lisbet Fritze, que volta meia aparece fazendo toda a diferença com sua voz.

Ainda sobre conexões, que inclusive são muitas no discorrer das 14 faixas, o The Cure de Seventeen Seconds (álbum de 1980) se faz sutilmente presente na obscura “Darklands”. Em uma ponte perfeita, surge “Glow” com um suposto viés etéreo – algo deveras normal por esses lados –, até desbancar em um viciante Minimal Techno.

Nessa ‘salada homogênea’ (por mais paradoxal que soe) de sons e memórias, também há espaço para aquele climão que só o cruzamento entre o pós-punk e o synthwave proporciona. É o caso de “In The Gloaming”. A seguir, outra especialidade de Anders Trentemøller: ambient music; “The Rise” e seus contornos cinematográficos na intro, para a derrocada sintética de batidas mais quebradas.

Já  “When The Sun Explodes” soa como se ele estivesse com saudade do remix feito para os comparsas escandinavos do Röyksopp, mas com uma roupagem explicitamente shoegazer, feito sob medida para aficionados por baixas temperaturas. Também por sua liga post-punk, o cara parece que se empolga, e de imediato engata um dos picos do disco, “Dead or Alive”; pedrada darkwave, no melhor estilo Second Still, Siouxsie and the Banshees e relacionados.

Lisbet Fritze volta a dar o ar da graça com a indie “All Too Soon” antes de “A Summer’s Empy Room” fazer o ethereal wave (incautos poderão chamá-la de post-rock) tomar conta novamente do registro, com sua atmosfera incontrolavelmente viajante. Se pareço exagerado, aperte o play usando bons fones de ouvido.


E por falar em viagem, a que mais se destoa de todas as outras, ainda que não cause choque, é a synthpop “Drifiting Star”. O efeito colateral é, digamos, umas alucinações do tipo: “como seria um álbum do Depeche Mode se inteiramente remixado pelo dinamarquês?”

A trip caminha para o fim, carregada de nostalgia, mas brilhando como chave de ouro.  “Like A Daydream” é definitivamente Chapterhouse com RG nórdico; embora seja de conhecimento geral que tudo que envolve o etéreo, é culpa do Cocteau Twins. Não ao acaso, “Linger” é a faixa escolhida por Anders para encerrar seu sexto trabalho da discografia.

Em suma, Memoria é o título perfeito para esse punhado, no melhor dos sentidos, de composições que resgatam uma era que de certa forma, nunca deixou de estar em voga nos subterrâneos sônicos; tanto europeu quanto o norte-americano. Além de terem bons dissidentes no Japão.

A diferença é que, mais uma vez, o timing de Trentemøller foi imprevisível, ao emprestar seu talento para mesclar o que de melhor está circulando por aí em um registro que está mais para “best of”, tipo as compilações clássicas dos Smiths, sabe?

Agora é apertar o play e ter uma boa retrospectiva, com os melhores de 1990, 1991, 1992…


Ainda:

+ O remix do Röyksopp assinado por Trentemøller foi a faixa “What Else Is There?”
+ As partes de teclado, guitarra e bateria (em “The Rise” e “Like A Daydream”) são creditados à banda 2nd Blood.

Ouça abaixo, pelo Spotify.

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