Black Country, New Road – For the First Time

Estreia de uma banda que já nasceu para incomodar ouvidos viciados

Por Luiz Athayde

Que a Inglaterra mantém intacta sua sina por ser um monstruoso celeiro musical, isso todo mundo sabe. Especialmente ao longo de incontáveis anos, pelo fato da pluralidade cultural ter se tornado parte do DNA de sua capital, Londres, com gente de todo o globo.

Como parte de todo esse emaranhado, está a mais nova bana no pedaço, que já nasceu incomodando uns, agradando outros, bem como despertando zero interesse de tantos (como já relevaram ao The Guardian recentemente): Black Country, New Road.

Black Country, New Road (Divulgação)

Logo de cara, chamaram a atenção por não aparecerem sisudos nas fotos como seus contemporâneos – e não necessariamente correlacionados musicalmente – IDLES, Shame, Fontaines D.C. e Working Men’s Club. Pelo contrário, os sete integrantes (sim, sete) aparecem joviais, como se estivesse em um still da série Friends.

Formado em 2018 sob as cinzas do Nervous Conditions por Issac Wood (vocais, guitarra), Luke Mark (guitarra), Tyler Hyde (baixo), Lewis Evans (saxofone), Georgia Ellery (violino), May Kershaw (teclados) e Charlie Wayne (bateria) eles chegaram em 2019 como se não quisessem nada, soltando singles que fariam parte de sua estreia discográfica, agora lançada pelo carimbo Ninja Tune, contando com “apenas” 6 faixas.

E a explicação vai além da longa duração das mesmas. For the First Time  navega sob o terreno do experimentalismo condensado em 40 minutos. E as origens são muitas, inclusive servindo para fugir do status quo dos lançamentos comerciais.

O que a princípio parece ser apenas uma introdução, já toma os primeiros 5 minutos do registro; “Instrumental” já chega metendo o pé na porta com sua jam rasgada pela navalha do Klezmer – música judaica mesclada a uma série de influências, incluindo principalmente a cigana, com força concentrada em países do Leste Europeu –, alertando os ouvintes para procurar pontes e refrãos em outro lugar.

“Athens, France” mostra uma via completamente diferente, inclusive pela influência nítida de Slint – uma constante em todo o disco. Um sobe e desce de climas que mais parece estarmos em uma peça de teatro, ou mesmo uma pintura surrealista.

Uma dose de sons esquisitos promovidos por uma guitarra distorcida é a abertura da cinemática “Science Fair”, endossada pelo embate entre o violino de Georgia Ellery e o sax agressivamente spiritual jazz de Lewis Evans. Mas o que se segue é um drama spoken word que só cresce. Desavisados podem pensar se tratar de um encontro entre Björk e Nick Cave, com direito a uma palinha do saxofone de Jørgen Munkeby (Shining) no final, mas é apenas um devaneio “científico” de Wood.

A faixa seguinte é “Sunglasses”, e traz mais uma intro que remete a uma coisa, mas acaba sendo outra. Sua distorção, típica de bandas drone, dá lugar a um post-rock cheio de tempos e contratempos. E olha, até ameaça um refrão daqueles bem pop, mas o sax (sempre ele) entra em cena e derruba tudo, juntamente com o restante da trupe. É onde entra a segunda parte, como se Led Zeppelin fosse o precursor do indie rock com “Kashmir”.

Hora de baixar a bola com “Track X”, uma das músicas anteriormente divulgadas; e a mais bela do debut, diga-se. Ambiente e intricada, ela traz um quê de nostalgia; além de permitir que o público a cante ao vivo, se isso algum dia for possível. Esperamos que sim.

Bem como começou, fechamento também se dá com o ritmo cigano, mas trazendo sua parte mais dançante, com seus andamentos por vezes frenéticos. E como a única lei decretada pelo grupo é não caminhar em linha reta, “Opus” toma outros contornos; dramáticos, agonizantes até.

Não é a primeira vez que um bando de músicos (neste caso, amigos de infância) se juntam para fazer um som fora do convencional, ou da caixa mercadológica. Isso é óbvio. Mas For the First Time  é a abordagem que a esfera alternativa – no sentido real: de alternar sons, nuances, referências – precisava, não somente como um contraponto ao minimalismo dos últimos anos, mas para abrir novas possibilidades musicais e (mesmo) estéticas dessa década. Se é que essa porta já não está escancarada.

É um disquinho que vai passar batido aos ouvidos viciados nos moldes radiofônicos, mas certamente será um playground para quem ama descobrir novidades a cada audição. Destaque absoluto até agora.

Ouça For the First Time  no Spotify.

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