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Thelonious Monk: a arte do improviso e da provocação em “Underground”

“Eu apenas compus músicas que se encaixavam com o que eu estava pensando”

Por Luiz Athayde

Em linhas gerais, divagar sobre o pianista e compositor norte-americano de jazz, Thelonious Monk, consiste em abordar seu lado amoroso, bem-humorado, homem de família e sua força como negro ante a uma sociedade racista; as loucuras protagonizadas por cortesia de seus ataques de bipolaridade, do abuso de álcool e substâncias ilícitas, mas sobretudo sua genialidade; como um improvisador peculiar, ás do be-bop.

Thelonius Monk em 1968 (Foto: CBS Photo Archive/Getty Images)

Uma das resultantes de seu talento foi um álbum genial até no nome: Underground. Classe de 1968. O último como quarteto. Sem mencionar (e o fazendo de prima) a capa provocativa, mostrando o músico de Rocky Mount, Carolina do Norte, como um combatente da Resistência Francesa (que lutou contra a ocupação nazista na França) na Segunda Guerra Mundial, sentado ao piano ostentando um soldado da Wehrmacht de refém.

Em tempo: a arte é assinada por John Berg e Richard Mantel, o primeiro um designer gráfico e diretor de arte contratado da Columbia/CBS Records. Dentre seu gigantesco portfólio, estão capas para trabalhos de Bod Dylan, The Dave Brubeck Quartet, Duke Ellington, Chicago e lista infinita.

O álbum também é o último com o saxofonista Charlie Rouse, que ainda conseguiu aparecer em algumas faixas, já que teve que se ausentar das sessões de gravação para ir ao funeral de seu pai.

A expressão “fora da curva” está mais que desgastada, mas é a que mais se encaixa quando você – independente da afeição ou não pelo jazz – expõe seus ouvidos às sensações que faixas como “Raise Four” passam. Uma espécie de blues torto, hipnótico, como se ele estivesse sintonizado à uma outra personalidade.

Em uma via completamente diferente, está “Ugly Beauty”, com uma valsa misteriosa na sua intro, até entrar em um terreno particularmente melodioso, mas igualmente cativante. Ou mesmo “Boo Boo’s Birthday” (Boo Boo era o apelido de uma das filhas de Monk), que se relaciona com o prisma intricado que ajudou a formar o rock progressivo.

Outra canção que faz de Underground um disco cativante é “In Walked Bud”. Cortesia dos vocais Jon Hendricks, que simplesmente te faz visualizar sua performance a cada nota – e nas palmas, enquanto Larry Gales (baixo) e Ben Riley (bateria) conversam com o piano de Monk com solos fantásticos.

Seu jeito singular de se expressar no universo jazzístico era tão natural quanto as notas ressoadas nos ouvidos de quem sente, mas certamente havia os que nunca entenderam por que ele nunca seguia, digamos, um caminho mais simples.


“Eu não estava tentando criar algo que seria difícil de tocar. Apenas compus músicas que se encaixavam com o que eu estava pensando”, disse Monk em 1965. “Eu sabia que os músicos iriam gostar, porque soava bem. Eu não queria tocar do jeito que ouvia música tocada toda a minha vida. Eu cansei de ouvir isso. Eu queria escutar outra coisa, algo melhor. Na verdade, eu queria tocar de forma diferente. Eu tinha uma concepção diferente de seção rítmica e tudo mais.”

Em contrapartida, na mesma entrevista, ele revelava pouca ou nenhuma preocupação em ser veloz: “Eu era um daqueles músicos que costumava tocar como um raio. Costumávamos tocar como um raio a noite toda no Minton’s às vezes.”

Embora Brilliant Corners (1957) seja sua eterna medalha de ouro por seu caráter revolucionário, mas também energético, a tentativa da Columbia de vender Underground como tal foi pra lá de louvável. Afinal, suas músicas pertencem a um conceito particular de Monk que naturalmente se convertem em algo amplo, palatável, e possível de ouvir sem fritar a cabeça com suas complicadas progressões de acordes ou contagem de compassos.

O álbum de despedida desta configuração também mostra, especialmente pela capa, é que o jazz pode ter sido usurpado pelo homem branco – aqui no mesmo contexto proferido pelos indígenas –, mas sempre terá cadeira cativa no âmbito da resistência: como expressão, na estética, ao quebra de padrões. Coisa que a mente de Monk provavelmente não tinha. Brilhante.

Ouça Underground na íntegra abaixo:

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