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King Gizzard & The Lizard Wizard – Omnium Gatherum

Quando a novidade envolve é atentar o ouvinte para mais uma grata surpresa

Por Luiz Athayde

Disco novo da super formação australiana King Gizzard & The Lizard Wizard. Pois é. E já fazem alguns meses, embora isso pouco importe para você que provavelmente foi engolido pelos algoritmos e sequer soube deste lançamento. Mas tudo bem: para quem solta discos na praça como vendedor de “churrasquinhos de gato” às sextas-feiras, não é uma tarefa fácil se atentar ao que sai por minuto na esfera musical.

Indo ao que interessa, este é o 20º álbum de estúdio da brigada de Melbourne, mas o primeiro a contar com todos os integrantes no mesmo espaço após um longo de confinamento. Palavras de Stu Mackenzie, vocalista, multi-instrumentista e força motriz da banda. E basta uma escutada atenciosa, mas rápida nos discos anteriores, especialmente o de estreia, que se trata de uma breve volta às raízes; se é que posso dizer isso sobre um grupo musicalmente tão heterogêneo.

King Gizzard & The Lizard Wizard (Foto: Stu Mackenzie)

E me refiro a pegada mais reta, direta, suja, garageira e despretensiosa de Omnium Gatherum, editado novamente por conta própria, ou seja, por vias independentes.

Ok, nada que não tenham feito antes mas, ainda assim, sabe-se lá como, conseguiram soar diferente. A faixa de abertura, “The Dripping Tap” navega por esse caminho e dá a entender que vão entre Willoughby’s Beach (2011)  e Nonagon Infinity (2016), isso em 18 minutos! Quase um EP. Até a gente se deparar com “Magenta Mountain” e perceber com quem estamos lidando. Aqui, resquícios de “Catching Smoke” (do álbum ‘Butterfly 3000’, de 2021) só que com mais profundidade e hipnose; groove até a medula, com direito a melodias espaciais. Fantástica.

Na sequência, a impressão é que os caras se empolgaram na negritude e soltaram “Kepler-22b” como se quisessem aparecer na trilha de Shaft (1971). Falando em surpresa, “Gaia” chega em forma de tempestade de poeira diretamente da região desértica daquele país, com muito peso e um riff simplesmente matador, também aliado aos vocais guturais de Stu. “Ambergris” volta ao ‘modo black’ do grupo Aussie sob as rédeas de nomes como Marvin Gaye e Otis Redding. De bobos eles não têm nada.

Não bastasse isso, “Sadie Sorceress” aparece como uma faixa perdida do álbum de 1992 dos Beastie Boys, o clássico Check Your Read. Sem mencionar que o grande trunfo da mesma é não ficar de gastação: experimentou, curtiu acabou. Em pouco mais de 3 minutos. Já “Evilest Man” é o momento relaxante no play, mas sem deixar o dinamismo de lado. “The Garden Goblin” segue o padrão R&B por vias psicodélicas – uma constante e quase que necessária na discografia – e aquele tempero lo-fi tão usado nos dias de hoje. Felizmente, por esses lados, há a certeza de que sabem o que estão fazendo.

Estamos na segunda metade do registro e “Blame It On The Weather” soa como… faixa de metade de disco. Se é que deu para entender. Não tão longe de soar chata, e por esse mesmo motivo ela se torna dispensável. “Persistence” eleva o nível novamente graças ao seu groove e o peso da bateria na mixagem. Se ouvida com fones de ouvido decentes, o resultado pode ser ainda mais satisfatório.

Simplesmente do nada, surge “The Grim Reaper” da zona cinzenta entre Quarashi e os finados Beasties. Elementos hip hop sim, como se feito na Macedônia; impossível não lembrar dos trabalhos loucos de Vasko Atanasoski (Bernays Propaganda, 21 Vek). O fim de aproxima e com ele mais uma composição para acalmar os ânimos: “Presumptuous”.


Mas calma que ainda tem mais. E das pesadas. “Predator X” ameaça um retorno a Infest The Rats’ Nest, de 2019 e é basicamente isso que se tem: thrash metal com riffs desérticos e os vocais roucos de Mackenzie dando o ar da (des) graça novamente. Sem esperar qualquer continuação, “Red Smoke” e “Candles” vão de psicodelia Floydiana dos tempos de Syd Barrett, algo bem recorrente entre outros compatriotas como Tame Impala e Nice Biscuit.  

O play é encerrado com chave oriental. “The Funeral” tem estranhos 2 minutos e 23 segundos de duração. E a surpresa se deve pela sua roupagem de improviso, em uma viagem supostamente interminável, mas não. O recado é dado e pouco tempo e, como quase sempre acontece, a sensação é de: “acabou?”

No mais, agora é esperar o que virá a seguir com a alegria de saber que o fator surpresa sempre estará ali, independente de agradar ou não o meu, o seu, o vosso paladar. Próximo.

Ouça Omnium Gatherum na íntegra abaixo:

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