Você Precisa Ouvir: Needlepoint – Outside The Screen (2012)

Você Precisa Ouvir: Needlepoint – Outside The Screen (2012)

Goleada norueguesa em um jogo que mal estava começando

Por Luiz Athayde

“Gosto de Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer. Esses foram meus prediletos. Entretanto, não curtia muito guitarristas porque acabei entrando no ambiente do jazz. E, você sabe, antes eu preferia ficar no jazz e não ouvir todas as outras coisas, mas agora eu escuto muitos outros tipos de música. Eu também gosto de country, folk americano do bom como o de Alison Kraus & Union Station… E Ry Cooder, claro.”

Esse foi Bjørn Klakegg, guitarrista, líder, eventualmente vocalista e uma das mentes criativas da brigada norueguesa Needlepoint, diretamente das páginas do livro Mondo Massari, de 2013, embora a entrevista seja de 17 de junho de 2010.

Daí já se sabe a orientação sonora deste álbum, certo? Não necessariamente, e digo mais: ainda bem!

É óbvio que, para facilitar para quem lê e escava, muitos no meio da crítica musical usam rótulos criados há sabe-se lá quanto tempo, ou mesmo algo inventado na hora. Mas, sinceramente, todos valem.

Needlepoint

Formado em Oslo, Noruega, na classe de 2010, o Needlepoint  já chegou soltando The Woods Are Not What They Seem, que inclusive merece palavras exclusivas. Em 2012, e contando com Nikolai Hængsle (baixo), Thomas Strønen (bateria) e David Wallumrød (teclados), o guitarrista Bjørn Klakegg partiu para a segunda e melhor jogada por carimbo próprio, a BJK Music.

Embora no decorrer da entrevista citada acima, Klakegg revele de onde veio seus devaneios guitarrísticos – Hendrix, Page e afins –, basta apertar o play para dar de cara (ou tímpanos) com uma gama de outras nuances, jazzísticas ou não. Vide a faixa título e a smooth “Tree On A Hill”.

Se “Johnny The Player” traz aquele híbrido entre o velho Deep Purple e o atemporal Sonny Rollins (sem o sax), para citar um exemplo, “If I Turned Left” mergulha na lisergia do espaço não explorado para atingir o grau necessário de psicodelia da louquíssima “Magpie”.

Um dos mais belos momentos da carreira do Needlepoint está justamente neste álbum. Se este registro fosse inteiramente eletrônico, “Tem Seconds” certamente seria aquela faixa chillout, digna para momentos pós-fritada nas pistas de uma rave de 3 dias.

“Snoring Husband” empolga do início ao fim por motivos pra lá de óbvios: despretensiosa, viajante, jam, ao vivo como deve ser – e é, como o próprio Klakegg confidenciou, nesta mesma entrevista. Aliás, que baixo é esse…

A parcela montanhosa do guitarrista aparece no desfecho do álbum. A princípio, as influências western de Klakegg são bem visíveis em “Sikup Sinaani”, mas o que se revela através dessa fumaça sônica é um aceno aos picos de todo o globo. Mountain Jazz? Fica a cargo do ouvinte.

Não é de hoje que a Noruega é uma excelência em jazz, mas à partir do momento em que os músicos daquele lugar resolveram beber de outras fontes (guitarras… distorção… guitarras), o nível subiu consideravelmente. Não é à toa que no mesmo período tivemos álbuns seminais de nomes como Shining, Elephant9 e do veterano Nils Petter Molvær entre 2010 e 2013.

E é por isso que você precisa ouvir Outside The Screen; por te catapultar naturalmente para um passado recente, bem recente, mas prolífero e de alto quilate, como em poucos lugares do mundo, especialmente naquele raio de tempo.

Bônus: bate-bola rápido de Klakegg com Fabio Massari, em 2010.

+ “Você sabia que eu já estive no Brasil? Tenho um amigo que se chama Célio de Carvalho, que mora aí.” (…) “Eu o visitei em Niterói. E tocávamos em uma jam session com Gilbertinho da Silva num quintal de um lugar pequeno no Rio quando, no fim da apresentação, o cabo de eletricidade começou a queimar. Então, as pessoas tiveram que jogar cerveja em cima das chamas. Foi um fim de show muito legal.” (…) “[Eu estava em] uma espécie de férias. Eu estava com Célio e conheci alguns amigos dele. Eu estava tentando aprender português, mas não consegui”, sobre sua aventura em Terra Brasilis, em 2005 ou 2006.

+ Há muita atividade tanto no jazz quanto no rock ou na música pop. Há outra coisa também: agora as pessoas estão conhecendo umas as outras. Por exemplo, os músicos de jazz passaram a conhecer mais os músicos da cena do rock. Minha banda, por exemplo – o baixista é mais do meio do rock enquanto que eu e o baterista somos mais do meio do jazz.” (…) “… o ambiente é muito legal e coisas muito criativas estão acontecendo na Noruega nos dias de hoje”, ao comentar o ótimo momento da música norueguesa.

+ “Quando nos encontramos, gravamos em um pequeno estábulo que tenho na Suécia com minha namorada.” (…) “Quando tocamos em público, temos algumas musiquinhas no início e depois é importante, para nós, esquecermos o que fizemos lá no CD para que possamos trilhar novos caminhos. Entretanto, tem funcionado muito bem ao vivo porque o CD é bem ao vivo também. Nós simplesmente tocamos”, Klakegg o quanto de jam é o quando de coisa ensaiada é a música do Needlepoint.

Para ler essa e muitas outras entrevistas e divagações de Fabio Massari no livro Mondo Massari basta adquirir sua cópia neste link.

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