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Working Men’s Club – Fear Fear

A garotada de Manchester voltou ainda mais eletrônica, diversificada e com os pés nos chãos das pistas de dança

Por Luiz Athayde

No pandêmico ano de 2020 fomos presenteados com o álbum de estreia do “Clube dos Trabalhadores” da Grande Manchester, Inglaterra, o Working Men’s Club. Aparentemente filhotes de New Order, o desembolar da história, ou melhor, no discorrer do disco, você imediatamente percebia que se tratava de algo além, e isso inclui de Devo, Talking Heads e o que viesse à cabeça da garotada comandada pelo vocalista, produtor e cara de poucos amigos, Sydney Minsky-Sargeant.

Working Men’s Club (Foto: Divulgação)

Passando longe da tal síndrome do segundo álbum, eis que surge Fear Fear, produzido novamente por Ross Orton e editado agorinha pelo carimbo Heavenly Recordings. Se antes o mote era trazer um maior frescor para as pistas de dança, agora essa suposta regra simplesmente se esvai da mesma forma que… sempre foi. O play apresenta passagens experimentais, intricadas, ao mesmo tempo que ressoa extremamente palatável – no sentido “pop” da palavra.

Dentre as conexões, Bernard Sumner (New Order, Joy Division) e cia aparecem logo na primeira faixa, “19”, que começa bem diferente até tomar uma forma que poderia muito bem ser encaixada em qualquer registro atual de seus conterrâneos. Cópia? Não mesmo. Já a faixa-título mergulha livre nos clubes noturnos regados a sintéticos, dos anos 90. Ainda assim, não se trata de um som nostálgico, mas uma espécie de ‘papo atualizado’ de como era antigamente.

Das inúmeras conexões com nomes clássicos,“Widow” traz um coincidente (ou não) cruzamento entre Eurythmics e Real Life, com synths mais pesados e andamento punk. Como se não fosse o suficiente, eles se mantém zona temporal entre a década de  80 e a seguinte com a instigante “Ploys”, tendo como destaque sua pegada breakdance.

Ainda estamos na metade do registro e o nível continua alto. “Cut” é uma verdadeira pedrada pós-punk nos melhores moldes Joy Division/Modern English. E cá entre nós, quando se sabe mesclar a energia do punk rock com as incontáveis possibilidades da música eletrônica, o resultado dificilmente peca. Para não perder o pique, “Rapture” vem logo na sequência, igualmente rápida, e com uma intro spoken word, sem melodias até abrochar em outro dance-punk de primeira.


Gary Numan e Ultravox voltam a fazer escola com o clube na envolvente “Circumference”, dificultando ainda mais a escolha do ponto alto do disco. Synthpop clássico, como no começo daqueles anos que vocês já sabem muito bem. “Heart Attack” mostra novamente a forte influencia do universo hip hop exercida no grupo de Manchester, ainda que sob certo processamento da marca New Order e traços notáveis de Kraftwerk, Afrika Bambaataa e o começo do synth funk. Das faixas impossíveis de ouvir sem mexer um músculo do corpo sequer.

O fim de aproxima com “Money is Mine”. Seu timbre é pulsante, mas a batida é tão quebrada quanto a ordem (?) das músicas. Além de estar mais para um pano de fundo para o pequeno grande poeta urbano, Sargeant, soltar o verbo. E vale lembrar que ficar parado não é uma opção. Não à toa, a irônica “The Last One” encerra de modo tribal e hipnótico, o suficiente para ir para o repeat.  

No mais, a real é que com tempos pós-pandemia ou quase isso, nada melhor, no âmbito musical, que ouvir um conjunto de sons que te pegam logo de cara; seja pelo fator surpresa, ao esperar algo bizarro, krautrock, ou que balancem os sentidos de tal maneira que os problemas fiquem em segundo plano. E o que esse pessoal do Working Men’s Club fez em Fear Fear foi trabalho de gente grande, que sabe exatamente onde está pisando. Que o clube continue consistente e que façam os trabalhadores se divertirem por longos anos. Discaço.

Ouça na íntegra abaixo, no Spotify.

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