Você Precisa Ouvir: Levitation – Need For Not (1992)

Você Precisa Ouvir: Levitation – Need For Not (1992)

Primeiro e único dinamite sônico de uma banda que tinha tudo para explodir

Por Luiz Athayde

Está para existir uma banda que não tenha passado por turbulências internas, especialmente após sentir o gosto do sucesso, e nem precisa ser dos grandes.

Isso quando não “vão pras picas” de uma vez. As variantes são muitas. Neste caso, depressão por “excesso de genialidade”, ou a forma mais romântica que encontrei para descrever Terry Bickers, a mente mestre por trás da brigada psicodélica, espacial e quase shoegazer londrina Levitation.

Levitation (Foto: Divulgação)

Também posso me referir ao baterista David Francolini, o guitarrista Christian Hayes, o baixista Laurence O’Keef, bem como o tecladista Robert White como um supergrupo, já que todos colecionavam calos tocando em bandas subterrâneas do cenário inglês.

Insatisfeito com os rumos que o seminal The House of Love estava tomando com o carimbo Fontana Records, Bickers pegou sua guitarra e pulou fora, mas tendo em mente um novo projeto. Na verdade, mais que isso: uma experiência completamente diferente do (delicioso, diga-se) arroz com feijão janglin’ de Guy Chadwick e cia.

Bem no velho esquema de conhecer um, depois outro por indicação ou através de, a formação estava pronta para editar seus punhados de singles e EPs, que logo menos serviram como seleta na compilação Coterie, lançada pela Ultimate Records e Capitol Records (EUA) em 1991. Apesar da crítica negativa da poderosa NME (New Music Express), esse foi o registro que abriu portas para a banda nos Estados Unidos, tocando suas primeiras datas em Los Angeles e Nova Iorque.

Em 1992 o ritmo de apresentações continuava firme, graças ao sucesso do fantástico single “World Around”, que alcançava o top five da parada indie britânica. Àquela altura, eles estavam abrindo para o The Fall – segundo boatos descritos no Wikipedia, Mark E Smith ficou puto com eles por causa do tempo que levavam para passar o som e pela quantidade de gelo seco que usavam nos shows, os chamando de “frescos de merda” … bom, vai saber.

De qualquer forma, o que importa (aqui, pelo menos) é que aquele foi o ano do primeiro e, infelizmente, único álbum de estúdio deles. Need For Not  só não causou um estrago maior – no melhor dos  sentidos – na cena porque a banda já estava em processo de implosão. Tanto que a saída de Terry foi da forma mais sacana possível, embora desse uma bela cinebiografia; no palco, apenas disse: “O Levitation é certamente uma causa perdida, pelo que eu posso dizer. Nós estamos completamente perdidos, não é? Não estamos?”

Saber de tudo isso não é de causar muitas reações porque se trata de uma típica história de separação de músicos outrora embrenhados no enorme e competitivo panorama britânico dos sons indie… até ouvir as músicas. É verdade que a neopsicodelia não era novidade, é verdade que o shoegaze havia eclodido com nomes bem-sucedidos como Ride, My Bloody Valentine, Lush, Slowdive, mas esses caras conseguiram ir além.

Todo aquele papo que volta e meia solto por esses lados de “paisagens na cabeça” e “tempo cinzento” se encontra de forma tão explicita que mal dá para descrever. “Arcs of Light and Dew” é um dos exemplos onde etéreo se encontra com a jam session de garagem, ao mesmo tempo em que o space rock é a força motriz de todo o emaranhado sônico.

Se ainda acha pouco, tente os flertes progressivos de mote hardcore de “Pieces of Mary”, caso não te leve, em algum momento, para as trips dos primeiros discos dos alemães do Eloy. Em “Coterie”, clima é o que não falta, não somente pela criatividade de White nas ambientações, como pela pegada inovadora de Francolini.

Em suma, você precisa ouvir  Need for Not  por ser um disco que incita diferentes sensações nas primeiras audições, incluindo a de que está em um show ao vivo, com todo o dinamismo, nuances e experimentos possíveis; além de ser uma ótima via, mesmo que apagada, de um período assustadoramente fértil como foi o Reino Unido do fim dos anos 80 e meados dos 90.

Ouça o álbum completo no Spotify:

Deixe uma resposta