Você Precisa Ouvir: How To Dress Well – The Anteroom (2018)

Quando o requinte do pop encontra o experimentalismo exacerbado

Por Luiz Athayde

Quando foi anunciado o line-up da nona edição do Balaclava Fest em São Paulo, um dos nomes que menos me chamou atenção foi o How To Dress Well. “Comum” e sem muitos atrativos nas músicas que escolhi para conhecer, foi um ato que tive curiosidade para conferir, mas facilmente ofuscado por um lugar melhor na hora da atração e motivo principal da minha ida à São Paulo, Ride.

No dia seguinte ao festival, após irritantes contratempos que não merecem ser mencionados aqui, sem querer descubro que haveria um after – termo bonito e em inglês para um show bônus, um extra, enfim – com How To Dress Well no Breve, uma casa de eventos mais no esquema coletivo, próximo onde eu estava hospedado. Embora cansados e iludidos com a pizza calabresa sem queijo de São Paulo – “você devia ter pedido com queijo”, me disseram dias depois –, fomos, sem pestanejar para o local do evento, onde o ato de abertura Røkr, já se encontrava a todo vapor.

How To Dress Well no Breve, São Paulo. Abril de 2019 (Foto: Arquivo Pessoal)

Uns acertos aqui, outros acolá e começa um dos shows mais sinceros e impactantes que já vi na minha vida. Tom Krell é natural de Colorado, EUA. Além de cantor, compositor e produtor, ele também lança mão das artes visuais; sejam elas corporais ou através de um telão, como foi o caso desta noite. Vestido como se estivesse na própria antessala de casa, seu setlist foi voltado para seu último trabalho The Anteroom, uma verdadeira ode à experiência sônico-visual, interpretando suas músicas de mote experimental e até improvisado com uma verdade fora de série. Sem mencionar os momentos para perguntas dos poucos mais de 20 sortudos ali presentes, com respostas muito bem humoradas, garantindo ainda mais interatividade entre artista e espectador.

Descrever aquela noite de domingo de 28 de abril é tão difícil quanto o álbum em si. Vindo de um flerte explícito com a música pop praticada por estabelecidos nomes – uma espécie de Justin Timberlake do indie, no melhor dos sentidos – com Care, de 2016, Tom chega com um testamento “de um período onde ele sentia que estava dormindo fora do mundo dentro de uma solidão cósmica onde era eventualmente dissolvido”, experimentando sons, nuances, mas sem esconder influências sônicas como Coil, Prurient, Grouper, Gas ou mesmo uma Björk que precisa ser descoberta em seu ser.

Isso não significa que The Anteroom seja um álbum “anti-pop”, muito pelo contrário, Krell hasteou sua bandeira do Alternative R&B na exata linha tênue que existe entre o requinte do pop e o experimentalismo exacerbado, aliando atmosféricas melodias à já endossada interpretação de suas verdades pessoais. As “Nonkilling” (1, 3, 13 e 6) pintam viciantes quadros cinzas em ambientações azuladas, prendendo o ouvinte nas diferentes ordens que foram colocadas; R&B dos grossos. A synthwave “Love Means Taking Action” traz o momento “fim de tarde próximo à alguma enorme palmeira de Los Angeles”. Nos anos 80, claro. Já “Brutal” começa ameaçando um industrial, quando na verdade, entra num clima chill como cortesia para a participação do poeta vietnamita-americano Ocean Vuong.

Skinny Puppy encontra com Bel Canto em alguma geleira no ártico em “False Skull”, e também em “Nothing”, ou quase. Aliás, uma faixa deveras empolgante para se fechar um álbum. Ou, de repente foi para deixar aquele gosto de ‘quero mais’. Um ponto presente no álbum e que foi presenciado ao vivo, é a tamanha afinação de Tom, inclusive começando o show à capela com “Body Fat”, aqui naturalmente mais atmosférica.

E foi apenas alguns dos 13 exemplos –  faixa a faixa iria estragar tudo – aparentemente desconexos de um álbum que, na verdade, está todo interligado. Você precisa ouvir The Anteroom por ser a via perfeita para adentrar em um terreno mais elaborado sem tomar maiores sustos, já que ao longo dos bons minutos que percorrem o álbum, nada se perde; são novas descobertas e, consequentemente, novas viagens a cada audição.

Ah, lembram do “sem muitos atrativos nas músicas que escolhi para conhecer”? A essa altura, isso já não existia mais. Mas aí é outro disco (Care), outra resenha, e principalmente, outras viagens.

Ouça The Anteroom:

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