Vanishing Twin – Ookii Gekkou

Vanishing Twin – Ookii Gekkou

Espacial, psicodélico e nada convencional para o formato pop

Por Luiz Athayde

Saiu o terceira pintura da formação psychedelic/art pop britânica Vanishing Twin, sob o título Ookii Gekkou, ou, traduzindo para o português: “O Grande Luar”.

Vanishing Twin (Foto: Divulgação)

O sucessor de The Age Of Immunology, de 2019 veio para consolidar a sonoridade amorfa de uma banda que possui integrantes oriundos de diversas partes do globo; a vocalista e multi-instrumentista Cathy Lucas vem de Londres; Phil M.F.U. (ou Man From Uranus), responsável pelas seis cordas e sintetizadores, de Cambridge; o baixista Susumi Mukai é japonês e a baterista Valentina Magaletti é italiana.

Mais importante que isso, claro, são as influências distintas, que no fim das contas, vem dando super certo quando misturadas. Neste terceiro registro de 9 faixas, que estão mais para quadros, você encontra o que o grupo se propõe a fazer desde sua gênese, em 2015: uma salada artística que inclui, por exemplo, dadaísmo, surrealismo, futurismo, pós-punk e todos os “psych” possíveis; pop, space, jazz e vai.

Basicamente não há limites na hora de desenhar as composições que, embora soem experimentais a ouvidos pouco acostumados, estão cada uma em seu lugar. Independente dos ouvintes serem de primeira viagem ou não, o álbum instiga sensações diversas, trazendo diferentes imagens – sim, aquele velho papo nosso ao descrever discos não convencionais de pop ou o inverso – na mente, e isso sem, necessariamente, precisar de usar algum “quadrado”, se é quem me entendem.

“Big Moonlight (Ookii Gekkou)” começa nessa pegada. Seu ar de mistério se parece com tudo, menos com uma faixa de abertura. Na sequência, um dos cartões de visita (e também dos mais legais); “Phase One Million”  revela a cara mais funk do quarteto, mas sem deixar suas doses singulares de hipnose de lado. A mesma ganhou um videoclipe animado produzido por Noriko Okaku. Acho que nem é preciso dizer que a parte visual é sintetizada nesse pouco mais de 5 minutos.


“Zuum” vai para o espaço partindo da ótica oriental, guiada por violinos e uma fantástica linha de baixo. “The Organism” se inicia com uma sessão de ruídos (que inclusive lembram bem de longe as peripécias de Nik Fiend no disco ‘Another Planet’, do Alien Sex Fiend) até se desenvolver em uma mescla percussiva e etérea. Além do toque final da flauta. Qualquer conexão com o Faust e Can aquié totalmente válida.

Em clima de jam, “In Cucina” parece ter sido extraída de alguma cena de filme noir dos anos 50, em um lance jazz de orientação ritualística. Essa é a faixa onde as atividades percussivas brilham, ao mesmo tempo em que servem como uma espécie de interlúdio para o próximo ato. E ainda sobre reluzir, a voz de Cathy Lucas nunca se mostrou tão cativante como em “Wider Than Itself”. Sem mencionar (e já o fazendo) os arranjos de caráter minimalista – a quem ouve, diga-se –, completando o ar singelo da canção.

“Light Vessel” apresenta uma abordagem que já podemos dizer ser característica da banda, no que diz respeito as batidas groovadas e “para trás” de Valentina. Os vocais estão no modo vocoder, mas sem qualquer ligação com os franceses do Air, ao menos em primeira instância. “Tub Erupt” vem logo em seguida, como um pico no gráfico sônico do registro; baixo e synths no comando, e bateria sendo conduzida ao meio do nada. É, de longe, a mais eletrônica, e curiosamente, uma das mais setentistas. Pequena grande faixa!

“The Lift” encerra o trabalho da mesma forma que começou: pelo meio. É como se fosse apenas uma linha continua tal qual o universo, mas sem maneirismos e pretensões de algum metido a avant-garde. Muito pelo contrário. Ookii Gekkou é fluído, dinâmico, e, ao mesmo tempo, te provoca a descobrir as incontáveis nuances temporais que possui. A diferença é que aqui eles resolveram criar, pela terceira vez, uma obra de arte que pudesse ser absorvida com os ouvidos. Inspirador.

Ouça o disco no Spotify.

Este post tem um comentário

  1. Julio Caldeira

    Curti. Essa “Phase One Million” tem um ciclo rítmico meio afrobeat, além disso, a intro me remeteu à “Sérgio Mendes & Brasil ’66”. Depois, ela vai evoluindo para uma psicodelia cíclica, meio que em mantra mesmo. Aqui no Brasil tem a banda carioca “Amplexos” que faz isso também, esse lance de ficar gastando os desdobramentos da mesma vibe por toda a música (ouça Leão, que tem algo cíclico afrobeat também). Bom, enfim, tem algo meio Sade “Smooth Operator”, que eu gosto.

Deixe um comentário