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Resplandor – Tristeza

Ato shoegazer peruano radicado na Holanda apresenta mais um grande momento em sua promissora discografia

Por Luiz Athayde

O shoegaze continua rendendo bons e gélidos ventos mundo afora. Especialmente na classe de 2022. Como prometeram, o pessoal da banda Resplandor chegou com seu quarto álbum de estúdio, sob chancela da Automatic Entertainment/Reptile Music: Tristeza.

Resplandor por Margaret Tarasenko

A quantidade de músicas no disquinho – disponível em vinil e CD no Bandcamp – é pouca, mas com uma carga emotiva que dispensa numerações. As mesmas são assinadas pelo guitarrista e mentor Antonio Zelada, que há longos anos deixou sua cidade natal, Lima, Peru, para viver na Holanda. Tatiana Burkina (sintetizadores, backing vocals), Joeri Gydé (baixo, violoncelo) e Christopher Farfán (bateria) o acompanham nesta empreitada.

Não bastasse isso, o registro, gravado no Jan Schenk Studio em Amsterdã, tem sua produção assinada por ninguém menos que Robin Guthrie, espinha dorsal do saudoso Cocteau Twins; enquanto a masterização ficou a cargo de Simon Scott, baterista do Slowdive. Impossível dar errado.

Bom, até seria se as composições fossem fracas, sem o menor potencial. E não é mesmo o caso aqui. “Blue”, um dos singles previamente compartilhados, abre de forma sublime e com aquele viés pop, ou seja, com todas as cartadas logo em seu início: refrão colando na psique e vocais dobrados para hipnotizar o ouvinte por longos dias. Em “Rêverie”, o  grupo soa como se houvesse um encontro entre Skywave e Slowdive em  uma encruzilhada para lá de gelada. Mais uma faixa que te pega de imediato com seu som aberto, espaçado e indo para onde a corrente marítima leva.

Chegou a vez da faixa-título. Aquele caso onde as bandas fazem algo diferente ou apenas seguem o fluxo. Zelada e cia optam pela segunda opção de maneira assertiva, mergulhando mais fundo na sua fonte inspiradora, Slowdive. Em contrapartida, “Adore” surge com uma leve flete noise, mais como um adereço para a roupagem melódica e sobretudo etérea da canção.


Já em “Océano”, a sujeira toma mais forma ao se entrelaçar com a ambiência, que simplesmente vem até você como sessões de ondas gigantes em um mar revolto. E a mesma ser instrumental, dá ainda mais o toque de desolação em sua atmosfera. “Feel” sinaliza o caminho de saída, ou desfecho, por vias eletrônicas, mas não menos shoegazer. Às vezes a sensação é que estamos ouvindo Just For A Day (estreia discográfica clássica do Slowdive de 1991) e outras, em alguma viagem espacial feita pelo Bethany Curve.

Os traços de rock alternativo mais, digamos, básico, aparecem no final, com a sugestiva “Silencio”, tendo em vista que seu efeito é justamente o contrário a quem absorve: reverbera mais uma vez na cabeça sem previsão de término. Cortesia da sonoridade flutuante na sua essência, segurada apenas pelo groove da bateria de moldes sessentistas.

Embora tenhamos à disposição discos seminais de safras ocorridas entre o fim dos anos 80 e meados dos anos 90, não podemos negar que os novos lançamentos estão vindo com um quê de paixão que faz toda a diferença. É claro que isso pode desbancar em algo genérico, que ficando preso àquele tempo, mas em Tristeza há um vislumbre de como tudo é relativo. Afinal, as músicas são novas, mas feitas por um ato oriundo da classe de 1996. Enfim, grande álbum capitaneado por uma formação com muita estrada para rodar.

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