Peter Steele (Type O Negative): “Sempre haverá pessoas que te odeiam, não importa quem ou como você é”
Foto: Paul Bergen/Getty Images

Peter Steele (Type O Negative): “Sempre haverá pessoas que te odeiam, não importa quem ou como você é”

Em 2003, o saudoso músico nova-iorquino abre as feridas em uma entrevista carregada de honestidade e certo humor ácido

Por Luiz Athayde

Hoje Petrus Thomas Ratajczyk completaria mais um ano de vida. Pois é, “aniversário de morte” não é muito a nossa, até porque não teria nada o que comemorar, certo? Nem hoje nem há mais de uma década, quando ele partiu.

Conhecido como Peter Steele, a voz, o baixo (e para muitos também, músculos) da banda nova-iorquina de doom, gothic, hardcore, shoegaze, enfim, Type O Negative, também era uma figura controversa. E isso pode ser visualizado como politicamente incorreto ou, de acordo com seu estado de espírito, mal humoradamente engraçado.

Em 2003, a banda se encontrava na divulgação de seu sexto álbum de estúdio – levando em consideração o ao vivo fake ‘The Origin of the Feces’ – , Life Is Killing Me, carimbado pela Roadrunner Records; um registro surpreendente não apenas sonoramente, mas porque após o lançamento do arrastado e igualmente seminal World Coming Down (1999), tudo levava a crer que eles não soltariam mais nada na praça.

Para saber mais sobre o disco, Anja Delastik, do site AS LONG AS IT’S BLACK, conversou com o gigante do Brooklyn, que foi além e abriu sua intimidade, ao desenterrar erros e cadáveres do passado, vício em drogas e tópicos familiares. Além de abrir o jogo quanto à sua ficha criminal.

Confira.

Peter Steele (Foto: Michel Mees)


As Long As It’s Black: Como você passou os últimos quatro anos?

Peter Steele: “Com cocaína e álcool.”


ALAIB: O de sempre…

Peter Steele: “Bem, não mais. Estou lentamente ficando velho demais para isso; muitos efeitos colaterais negativos.”


ALAIB: Na última vez em que nos encontramos, você estava em péssimas condições. Como você está se sentindo hoje?

Peter Steele: “É meio constrangedor admitir, mas me sinto muito bem.”


ALAIB: Para ser honesta, fiquei surpresa ao saber que você estava lançando outro álbum; Achei que você não gostaria mais de fazer música. Além disso, seu último disco, World Coming Down, é extremamente frustrante em muitos aspectos; Eu ainda não consigo ouvir.

Peter Steele: “Eu concordo, [é] muito negativo, muito deprimente. Mas essa era a pessoa que eu era naquela época. Eu tinha  problema com drogas e com álcool. Além disso, comecei a compreender a morte do meu pai – embora ele já tivesse falecido em 1995. Tive problemas de relacionamento, estresse com nossa gravadora e com nosso empresário… Tudo isso me pesou e influenciou minha composição. O álbum foi o melhor que eu era capaz de fazer naquela época. Nem não consigo ouvir, me deixa muito para baixo.”


ALAIB: Pelo que entendi naquela época, você tinha que liberar essas coisas para poder continuar…

Peter Steele: “Exatamente, está correta.”


ALAIB: Ter que tocar essas músicas depois e ser lembrar de como você se sentia miserável: Por que você faria isso consigo mesmo?

Peter Steele: “Acho que sou masoquista.”


ALAIB: Parece que você precisa se desculpar com sua banda e seus fãs pelo World Coming Down?

Peter Steele: “Sim, de fato, eu quero. Eu era tão egocêntrico e egoísta naquela época, que hoje tenho a sensação de que decepcionei alguns dos meus fãs porque não encontrei um certo nível de qualidade. Com este novo álbum, eu queria me tornar mais diversificado. Claro, ele também tem seu lado sombrio, lida com morte, vingança, ex-namoradas e todas as coisas habituais sobre as quais costumo escrever. No entanto, também tem muitos lados engraçados. Parece uma mistura de Bloody Kisses, October Rust e um pouco de World Coming Down.”


ALAIB: Falando em humor: a letra e a música de I Like Goils são muito estranhas…

Peter Steele: “I Like Goils é uma música hardcore. Eu apenas curto esse tipo de música, porque representa um aspecto da minha personalidade. Tive a ideia para a letra porque depois que fiz as fotos para a Playgirl há sete anos, muitos fãs me abordaram com a revista e pediram meu autógrafo. Entre eles estavam muitos homens homossexuais. Enquanto me entregavam a revista dava para sentir como algumas páginas estavam grudadas, sabe? E eles estavam me passando seu número de telefone. Eu não tinha nenhum problema com isso, mas o que eu não gostava era como alguns deles agiam de forma intrometida e agressiva. Fiz eles entenderem: “Ei, me sinto muito lisonjeado, porque é um elogio legal, não importa se vem de um homem ou de uma mulher. No entanto, eu retribuo esses elogios exclusivamente às mulheres.” Ainda assim, enquanto eu estava compondo a música, eu imediatamente percebi que ela seria interpretada como uma música anti-gay. Chupe meu pau! Desculpe, por favor, desculpe minha linguagem.”


ALAIB: Isso te deixou puto?

Peter Steele: “Ah, isso aconteceu muitas vezes, mas não, não fiquei puto. Tudo o que pude dizer foi: “Não posso ajudá-lo”. Obviamente, tenho o direito de ser heterossexual.”


ALAIB: Você tem amigos homossexuais que já ouviram a música?

Peter Steele: “Sim, minha irmã. Ela deu altas risadas. Não tenho muitos amigos e, para ser sincero, com muitos deles nem sei se são ou não homossexuais. Não importa para mim. Contanto que eles respeitem minha orientação sexual, eu não me importo. O problema é: se você prefere algo, não significa necessariamente que você desaprova o oposto. Gosto da cor verde. O que eu sou então? Um ecologista? As pessoas vão dizer: ‘Ei, por que você não gosta de amarelo?’ Ou: O que há de errado com o azul? “Nada! Calma, gente! Eu simplesmente gosto de verde. Jesus Cristo!”

Peter com suas irmãs Cathy, Pamela, Patricia, Barbara, Annette em uma festa de réveillon (Foto: Ratajczyk Family)


ALAIB: Quem são mais politicamente corretos: alemães ou americanos?

Peter Steele: “Humm… Eu acredito que eles são igualmente tensos, embora de maneiras diferentes. Os alemães tendem a ser mais cautelosos quando se trata de serem chamados de fascistas ou nazistas, os americanos mais de outras maneiras. Eles são extremamente rígidos com o termo “politicamente correto” – eu odeio isso. Quando alguém me diz: ‘Oh, aquilo não era muito politicamente correto!’, Só posso responder: ‘Quem diabos é você, me diga o que é politicamente correto e o que não é.’ Quer dizer, o próprio fato de que o termo inclui a palavra “político” significa que meramente reflete uma opinião premeditada para servir a um determinado propósito. Eu não terei a opinião de alguém forçada sobre mim. E eu só posso dizer: ‘Foda-se, seu merda de homem heterossexual branco!’ Eu apenas me ofendi – o que isso me torna? Indique o termo apropriado, por favor!”


ALAIB: Por favor, me fale sobre a música Angry Itch.

Peter Steele: “Você conhece o filme Hedwig And The Angry Itch?” [Nota: Hedwig – Rock, Amor e Traição, de 2001]


ALAIB: Eu sei que é um musical sobre um transexual e sua cirurgia de mudança de sexo malfeita…

Peter Steele: “E é um grande filme com diálogos muito engraçados. A banda toda adora o filme, as músicas, a história. E tem uma ótima mensagem: Não importa se você é heterossexual ou homossexual, homem ou mulher, negro ou branco, desde que você seja você mesmo. Mas haverá pessoas que te odeiam, não importa quem ou como você é.”


ALAIB: Além disso, há muitas músicas que tratam de sofrimento, tristeza, dor e também do envelhecimento em Life Is Killing Me. A música Nettie, por exemplo, é sobre sua mãe que sofre de um caso grave de diabetes. Como você lida com o sofrimento dela?

 Peter Steele: “Ela está no hospital agora e provavelmente perderá um dos pés. Você sabe, meu pai morreu no Dia dos Namorados de 1995 e, desde então, aprendi a não ter nada nem ninguém como garantido.”

O jovem Pete Steele com seus pais (Foto: Reprodução/Flickr)


ALAIB: Depois de perder alguém próximo, você vive com medo de que isso aconteça de novo…

Peter Steele: “Isso é bem verdade.”


ALAIB: Ou você fica desconfiado quando nada de ruim aconteceu por um tempo, temendo que a desgraça esteja se aproximando. Assim que alguém adoece, você pensa: Merda, lá vamos nós de novo.

Peter Steele: “Exatamente… é assim que me sinto no momento.”


ALAIB: Você tem medo de adoecer e da morte?

Peter Steele: “Não, particularmente não. Mas às vezes, quando o telefone toca às duas da madrugada, sei que algo ruim aconteceu. Isso vem diminuindo a cada seis meses, mas sempre que acontece, acontece muito cedo. E não fica mais fácil lidar [com essa sensação ruim]. Uma das coisas realmente covardes que fiz na minha vida foi não ir ao funeral do meu pai. Estou relutante em consultar um psicólogo, mas é verdade: é a razão pela qual não pude aceitar sua morte e começar a lidar com ela. Porque fui um covarde, tenho que sofrer com isso agora. É quase como se eu tivesse desenvolvido uma obsessão pela morte e pela perda desde então. Espero que isso mude, mas está acontecendo por muito tempo.”


ALAIB: Você às vezes visita o túmulo dele?

Peter Steele: “Eu fui lá duas vezes.”


ALAIB: Você tem medo de imaginar que ele está enterrado?

Peter Steele: “Há algo que torna tudo ainda mais complicado. É disso que trata a música Todd’s Ship God. Meu pai costumava dizer: ‘Se você tem que chorar, é melhor chorar quando estiver chovendo, para que ninguém veja suas lágrimas. Seja homem!’ Antes do seu funeral, tive que pensar sobre essas palavras e isso foi conflitante pra mim… A primeira vez que visitei seu túmulo foi quatro ou cinco anos após sua morte, eu queria ver sua lápide, mas foi muito ruim…”


ALAIB: Você se permitiu chorar?

Peter Steele: “Sim, chorei.”

Peter Steele em ação (Foto: Reprodução/Getty Images)


ALAIB: Na faixa-título do álbum, você escreve sobre seu ódio pelos médicos…

Peter Steele: “Mesmo semanas ou meses depois da morte de meu pai, contas médicas foram enviadas para nós… Todos os tipos de testes e tratamentos que provavelmente foram desnecessários, porque sua vida não poderia ser salva de qualquer maneira. Sob o pretexto de ajudar as pessoas, a maioria dos médicos ganha uma fortuna. Agora que minha mãe está no hospital de novo, acontece tudo novamente.”


ALAIB: Do que I Don’t Wanna Be Me fala?

Peter Steele: “Essa foi mais uma daquelas faixas de hardcore estúpidas que eu escrevi para o disco. Será nosso primeiro single. Do que se trata? Não faço idéia. Eu não gastei muito tempo e esforço nas letras, só as juntei. Existem algumas linhas que significam algo, por exemplo, este verso sobre cair no sono na neve e nunca mais acordar. Isso tem a ver com a cocaína e que me odeio por ser muito fraco e incapaz de lidar com o meu vício em drogas. É difícil largar um hábito e parar de usar de repente. Estou me movendo em pequenos passos, mas pelo menos hoje estou dois passos à frente e apenas um atrás. Fica ainda melhor.”


ALAIB: Uma faixa que soa bem [como o álbum] October Rust é Anesthesia.

Peter Steele: “Outra música sobre drogas e álcool.”


ALAIB: Estranhamente, soa como uma canção de amor. Você já pensou em suicídio quando estava se sentindo muito mal?

Peter Steele: “Claro.”


ALAIB: Por que você não tentou?

Peter Steele: “Porque sou um covarde. E porque me sinto responsável pela minha família, principalmente pela minha mãe.”


ALAIB: Sua mãe diria que você é um bom filho?

Peter Steele: “Provavelmente ela diria: ‘Poderia ser pior’. “

Type O Negative (Foto: Divulgação)


ALAIB: A música (We Were) Electrocute trata do amor, ou melhor, do amor perdido. Por que você continua escrevendo músicas sobre suas ex-namoradas?

Peter Steele: “Porque eu não sou John Lennon. Meus relacionamentos são sempre muito complicados. E separações são algo com que todos podem se identificar. Todo mundo foi deixado em algum ponto. Para mim é difícil perder alguém que amo. Quando um relacionamento se desfaz, no começo é pior do que a morte. Porque a outra pessoa ainda está viva. Pode muito bem acontecer que a pessoa sobre a qual escrevi esta música ouça o álbum por curiosidade e pense “a música é sobre mim”. Você está certa, sua vadia estúpida!”


ALAIB: Por que todos os seus relacionamentos continuam terminando tão tragicamente? Ou são apenas os trágicos sobre os quais você escreve?

Peter Steele: “Tive muitos relacionamentos que terminaram numa boa. No entanto, se eu fosse escrever uma música sobre eles, soaria como música de circo.”


ALAIB: Mas por que você é tão mau nessas músicas?

Peter Steele: “Mau? Eu??? Você vê essas cicatrizes em meus pulsos? Esta mulher me deixou completamente derrubado. Eu estava tão abalado que queria me matar. Ela fez sexo com três dos meus ex-amigos nas minhas costas!”


ALAIB: Você tem namorada no momento?

Peter Steele: “Não.”


ALAIB: A gente pode colocar um anúncio pessoal para você?

Peter Steele: Um anúncio pessoal? (risos) Nossa!”


ALAIB: Vá em frente, o que uma mulher precisa ter para chamar sua atenção?

Peter Steele: “Não quero parecer tão superficial, mas antes de tudo, preciso achá-la atraente. Mas isso é normal, não? Você não gostaria de namorar o corcunda de Notre Dame, certo? Além disso, ela deve ter um grande senso de humor, compaixão e paciência… Também gosto de mulheres tímidas. Gente barulhenta me deixa louco. Claro, a inteligência é muito importante. E ela tem que ser alguém que nunca me acorde enquanto durmo. Dormir tem sido meu maior vício.”


ALAIB: O que uma mulher pode esperar de você? Quais são seus piores hábitos e falhas?

Peter Steele: “Provavelmente meu problema com o álcool. E que reajo de maneira muito emotiva quando alguém aperta os botões errados. Eu me torno agressivo e soco paredes e portas em vez de sentar e pensar sobre isso em silêncio. Quando estou de mau humor e uma mulher está comigo, peço a ela que me deixe sozinho, senão eu me perco completamente. Isso é outra coisa que eu preciso trabalhar. Já estive com mulheres que disseram que eu não prestei atenção suficiente a elas porque estou muito preso aos meus próprios problemas. Sim, porque é a única maneira de lidar com eles. Mas quando elas me dão nos nervos e me pressionam até eu ficar com raiva delas, elas falam que eu desconto nelas. O que elas parecem não entender: se tivessem me deixado sozinho em primeiro lugar – como eu pedi a elas – não chegaria a esse ponto. Mas então há muitos gritos e não posso me incomodar com isso.”


ALAIB: Você já esteve tão apaixonado que se entregou completamente?

Peter Steele: “Sim, definitivamente. E isso foi um erro. Há um velho ditado: ‘Se você ama algo, deixe-o livre – Se voltar para você, é para ser.’ É uma merda. Se você der liberdade demais a alguém, mais cedo ou mais tarde essa pessoa se apaixonará por outra.”


ALAIB: Existe alguém que você odeia do fundo do seu coração?

Peter Steele: “Ah sim. Não vou falar o nome, mas não teria problema em torturar lentamente essa pessoa por muitas vidas seguidas.”

Peter Steele em 2003 (Foto: Reprodução/Deviart)


ALAIB: A última música do álbum IYDKMIGTHTKY – If You Don’t Kill Me, I’m Gonna Have To Kill You me fez pensar na seguinte questão: Você já foi acusado ou condenado por um crime?

Peter Steele: “Mas não é disso que a música fala.”


ALAIB: Eu gostaria de saber de qualquer maneira.

Peter Steele: “[Nota da autora: “Peter vira para o baterista Johnny Kelly, que acabou de entrar no quarto do hotel: “Johnny, ela acabou de perguntar, se alguma vez eu fui acusado de algum crime. O que eu respondo? // Johnny Kelly: Bom, é… Não sei, fala pra ela, eu acho.)

Sim.”


ALAIB: Pelo que?

Peter Steele: “Tentativa de homicídio.”


ALAIB: E…

Peter Steele: “As acusações foram reduzidas a um insulto físico ou algo assim. Mas não sei dizer quem foi.”


ALAIB: Qual foi a sua sentença?

Peter Steele: “Ter que dar entrevistas pelo resto da minha vida. (risos) Não, estou brincando. Cinco anos em liberdade condicional, já que sou réu primário.”


ALAIB: Você às vezes mente em entrevistas?

Peter Steele: Se a entrevista for uma merda, tento muito confundir o jornalista. Mas, neste caso… Você provavelmente está pensando, nossa entrevista foi uma merda. Mas acho que correu bem. Estou em boa forma, sem drogas, não como da última vez. Só café e vitaminas. Admita, você só quer saber se eu te fiz de boba. Honestamente, não, eu não fiz.”

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