Jorja Chalmers – Midnight Train

Jorja Chalmers – Midnight Train

Muito além de Bryan Ferry e o que se espera de uma exímia saxofonista

Por Luiz Athayde

O que esperar de um registro de uma instrumentista de mão cheia? No mínimo um álbum instrumental regado a virtuosismo, como em muitos casos, voltado para outros músicos. Certo? Errado.

Nova tentativa: Jorja Chalmers é saxofonista e integrante da banda de ninguém menos que Bryan Ferry, mas não apenas isso; em suas apresentações ao vivo, é mais que normal que sua presença roube a cena, dada a elegância e sobretudo maestria do qual domina o tablado quando está com a voz do Roxy Music. Por fim, você resolve tomar conhecimento de seu trabalho solo, e acha que se trata de um álbum de jazz com foco no sax, até perceber que não está no meio de um Blue Note lotado (lendária casa de show de jazz com filiais inclusive no Brasil), mas completamente sem chão – no melhor dos sentidos.

Jorja Chalmers (Foto: Caitlin Mogridge)

Pois é. Caso tenha tomado um belo tapa ao ouvir Human Again, é melhor se acomodar porque a viagem segue adiante. Quase espacial. Midnight Train é o título da segunda empreitada, editada pelo carimbo Italians Do It Better, da australiana de Sydney; que fora Ferry, ainda possui Take That e Ting Tings em seu passaporte.

Bem como o registro anterior, Chalmers toca sax, canta (e que voz, diga-se de passagem) e usa e abusa dos aparatos eletrônicos. Cortesia do solícito Bryan, que deixou ela se deleitar na sua fantástica coleção de sintetizadores vintage em seu estúdio em Londres. E o resultado não poderia ser outro.

Bom, até poderia, com loops e batidas em meio a arranjos mais radiofônicos. Embora não tenha sido o caso. Sua faixas vão fundo em uma trip mais ambient, com tempero pop e nuances que levam o ouvinte a dimensões outrora exploradas pela rapaziada do krautrock. Conexões que passam  por Tangerine Dream e John Carpenter de maneira plausível, mas com a avidez de Jorja para buscar novos horizontes em sua própria sonoridade.

Tanto é que, mesmo se tratando de um disco essencialmente etéreo, ela não quis se alongar criando uma peça de, por exemplo, mais de 1 hora. Pelo contrário. São 40 minutos bem distribuídos em faixas que mal passam dos 3 minutos.

“Bring Me Down” e “I’ll Be Waiting” abrem os trabalhos e também são as que ganharam produção videoclíptica. A primeira desenha até de maneira esquizofrênica a solidão nos tempos de pandemia, enquanto a segunda endossa o teor sci-fi que perdura boa parte de Midnight Train. É também nesta última que o saxofone ajuda a criar uma paisagem dark jazz de um futuro tão distante (ou não) quanto os milhares de anos de A Máquina do Tempo de H.G. Wells.


Nessa “brincadeira” ainda deu tempo para um cover. Ou melhor, versão cinemática para “Riders Of The Storm” do The Doors. O resultado ficou muito a ver com uma cena de séries de mistério.

Se mexer com fios e botões significa experimentar, “Rhapsody” é a que se encaixa melhor nesse quesito. Além de ser a mais longa, seus caminhos sinuosos acabam levando para nada diferente do abstrato, tendo como objetivo a expressão em si, e não necessariamente agradar a um público.

Nem por isso se trata de algo difícil de ouvir e, como pretensiosos costumam dizer, “para poucos”. Longe disso. É como se Chalmers destrinchasse os experimentos ambient de Brian Eno e Bowie e os deixassem mais sombrio, mas, ainda assim, soando palatável a ouvidos de primeira viagem. Sem mencionar que Midnight Train (incluindo a faixa-título) pode ser uma bela porta de entrada para escavações mais profundas dentro da musica ambiente/eletrônica.  Mas isso vai depender da sua órbita durante a audição, recomendada especialmente com bons fones de ouvido.

Como aqui raramente se dá nota para disco, o recado é simples, claro e direto: ouça.

Completo no Spotify.

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