Dennis & O Cão da Meia-Noite – Id, Ego, Superego e Outras Porcarias

Dennis & O Cão da Meia-Noite – Id, Ego, Superego e Outras Porcarias

Novo trabalho do músico paulistano Dennis Monteiro foca nas relações humanas nos dias atuais

Por Luiz Athayde

Saiu a estreia discográfica de Dennis & O Cão da Meia-Noite, projeto do músico paulistano Dennis Monteiro (ou Dennis Sinned), figura conhecida no underground por integrar outras bandas e aventuras, incluindo o 1983, Days Are Nights e As Cinzas do Tempo.

Id, Ego, Superego e Outras Porcarias é o título do conflito das subpersonalidade sônicas que permeiam as músicas geradas em um espaço físico que está mais para garagem do que, propriamente, em um estúdio; dada a pegada rudimentar das mesmas.

Ainda assim, a resultante disso traz boas nuances e doses saudáveis de referências, especialmente para quem está adaptado ao terreno do pós-punk e suas bifurcações. Mas, nem por isso, ele começa pegando leve; “Sociedade Civil Burguesa” abre as portas como se desse de cara com Robert Smith trocando umas prozas com a rapaziada do Red Dons.  

E por falar no líder do The Cure, “Canino vs Siso”, anteriormente divulgada aqui no Class Of Sounds, é um deleite para quem gostaria de ouvir “Seventeen Seconds” com um leve aumento na velocidade. Em “O Cão da Meia-Noite”, a bola está mais baixa. É o encontro às frias do shoegaze e o pós-punk, com o assertivo toque spoken word. Aqui a (bad) trip  é garantida.

“Ya Ya!” mostra o lado eletrônico de Dennis, uma constante no Days Are Nights. Foi outra faixa que ganhou videoclipe – assinado por Felipe Zauber –, inclusive estreando hoje. “Dias de Chuva” é uma das mais ‘porão’ do disco, e como o nome diz, é impossível não remeter às friacas de São Paulo ou qualquer cidade grande em meio ao caos, mas sobretudo tomado pela apatia.


“Amor Tóxico” parece uma demo dispensada dos saudosos australianos do V. Spy V. Spy por soar dark, mas não deixa de ser uma boa alternativa em uma playlist com nomes como UK Decay e Spear of Destiny. Mais melódica é “Eles nos Querem”, e a possível comparação com Legião Urbana e correligionários mais subterrâneos dos anos 80. Dica: nem tente.

Por outro lado, temos “Sob um Céu de Van Gogh”, onde ele esboça sua versão das Montanhas em Saint-Rémy ao indicar o ponto alto e mais viajante do disco. Merecia pelo menos mais 3 minutos. Foi quase. Mas o que vem a seguir é mais… viagem. “Não Reconheço Mais o Rosto das Pessoas” inicia com uma baixaria (instrumento), indicando um desabafo em forma de jam por vias alternativas.

A hora e a vez do pós-punk clássico. “Não Jogue Lixo” é contraditoriamente limpa; garageira e janglin’ como as brigadas de Brasília – conexões com os plebeus de Philippe Seabra. No desfecho, um experimento em spoken word, também de viés eletrônico: “Meu Coração É Como uma Estação de Metrô”.

Neste contexto (artístico), uma coisa é certa: nessa pandemia, quem não pirou e tomou atitudes mais drásticas, seguiu resistindo fazendo arte com as ferramentas disponíveis. Mesmo com todas as dificuldades, a classe de 2021 tem mostrado uma quantidade de registros tão grande quanto nos últimos anos pré-Covid; com algumas surpresas – não necessariamente agradáveis –, várias esquisitices, discos fantásticos e lançamentos de fácil indicação, como Id, Ego, Superego e Outras Porcarias. Ouça sem neuras – abaixo, na Plainsong.

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