As 10 Melhores Escavações Sonoras de 2020

Diversidade é a palavra-chave de um ano marcado por inúmeros lançamentos, apesar da pandemia da Covid-19

Por Luiz Athayde

E lá vamos nós entrando no hall de listas injustas de “melhores”.  Neste caso, do pandêmico ano de 2020.

Mais que isso, o objetivo é traçar um brevíssimo panorama do que andou rolando no cenário discográfico, sobretudo o que figurou as páginas virtuais do Class of Sounds.

E tem para quase todos os gostos e camadas, já que, ao contrário do ranking do ano passado, esse inclui gente que já nasceu praticamente fora da caverna, dado o sucesso instantâneo. Confira!

10. Молчат Дома (Molchat Doma) – Monument

Como ignorar os novos queridinhos do darkwave/synthpop? Até seria fácil, caso viessem com mais do mesmo em sua breve discografia. Ainda assim, o nível seria condizente com o que anda rolando de bom por aí.

Mas  Monument, terceiro álbum de estúdio desta falange Minski, Bielorrússia adicionou mais tempero às pistas de dança, ou seja, batidas a caráter, melodias ainda mais grudentas (ou o pop se fazendo mais presente) entre composições densas, mas não tão políticas como seus registros de outrora.

É bem verdade que aquele país se encontra em um regime que passa longe da democracia, mas é como se Yegor Shkutko (vocais), Roman Komogortsev (guitarra e sintetizadores) e Pavel Kozlov (baixo) resolvessem focar em outras coisas. E foi o que fizeram, culminando no ponto alto da carreira até então.

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9. The Sea At Midnight – S/T

Coldwave made in California! É daquela parte do Pacífico que vem uma das ondas mais geladas do pós-punk.

O vocalista, compositor e produtor Vincent Grant é o nome por trás deste projeto que não buscou referências em novos nomes – como vêm naturalmente acontecendo com muitas bandas atuais, soando ainda mais genéricas –, mas exclusivamente na velha escola.

Qualquer conexão com o também excelente The Agnes Circle é mera coincidência, já que ambos beberam nas mesmas fontes; Echo & The Bunnymen, David Bowie, New Order, Joy Division e toda a safra da C86 (bandas do famoso cassete da NME de 1986). Ah, imporante: e extraindo o lado pop deles.

Embora esta seja uma seleta englobando 2020, coloque pelo menos mais 10 anos aí de importância pelo capricho em cada faixa editada ao longo desse ano – o álbum saiu a conta-gotas –, como resultante do nível de paixão depositado neste trabalho. Fantástico.

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8. Private World – Aleph

Bryan Ferry fez escola e formou os melhores alunos da classe de 2020. Oriundos de Cardiff, País de Gales, a banda centrada no duo Tom Sanders e Harry Jowett  enfim lançou seu primeiro disco cheio, pelo carimbo Dais Records.

Aleph  é regido sob o prisma do New Romantic, inclusive no que diz respeito ao visual, mas, acima de tudo, traz o que faltava na onda de bandas influenciadas pelos anos 80: a pegada “Rádio Antena 1”.

Explicando melhor, é aquela sonoridade mezzo AOR, mezzo sophisti-pop que permeava as diais daquela saudosa década, quase uma viagem no tempo mesmo, e melhor: com um refino fora de série.

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7. Vox Lugosi – Ética Nova [EP]

Melhores do ano no âmbito nacional é algo bem subjetivo, dada a qualidade de algumas das bandas surgidas nos últimos anos, ainda que outras tantas careçam de estrutura.

Mas este embrião do subterrâneo brasiliense merece espaço com folga pelo conjunto da obra, que envolve desde a parte estética, endossada pelo fotógrafo Blas Roig, às composições, que passam pela penumbra de nomes como Bauhaus, Ethiopia, The Damned, Killing Joke e Joy Division, mas devidamente alinhado com o espírito de nosso tempo.

E tudo isso feito por Luc Venturim (vocais), Felipe Rodríguez (guitarra), Yael Seixas (teclados), Miguel Ruffo (baixo) e Rubens Cardoso (bateria); músicos jovens, mas com uma grade curricular que inclui projetos a perder de vista, como bandas e atividades D.I.Y. (“faça você mesmo”) na sétima arte.

Se a nova ética de uma parte do pós-punk/gótico brasileiro é apresentar um trabalho profissional, o Vox Lugosi está muito bem, obrigado, com o seu EP de estreia Ética Nova.

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6. Rosetta Stone – Cryptology

Como assim? Com tanta gente nova no circuito, qual a finalidade de desenterrar um defunto dos anos 90?

Primeiramente: sim, estamos vivendo um cenário onde o pós-punk (ainda que alguns se lancem com uma orientação mais gótica) está pipocando pelos quatro cantos do mundo, mas o negócio aqui é gothic rock.

Em 2019, após hibernar por quase 20 anos, o vocalista e multi-instrumentista Porl King (ou também “Miserylab”, “In Death It Ends”) retornou às atividades soltando o álbum Seems Like Forever, mergulhando fundo nos seus dias iniciais.

Agora ele volta com Cryptology, soando mais reto, orgânico e visceral, como o velho The Sisters of Mercy. E mais: mostrando que, quando o assunto é música subterrânea, não há porque haver conflito de gerações. Os morcegos de plantão agradecem.

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5. Cabaret Voltaire – Shadow of Fear

Disco novo em folha após um longo hiato vem acompanhado de expectativas à altura. Se tratando de um dos maiores nomes do dadaísmo eletrônico então, nem se fala.

Mas escrevemos: Richard H. Kick, o único constante neste ato formado na cidade britânica e industrial de Sheffield, não apenas honrou a marca, como trouxe um dos registros mais sensacionais do ano.

Pudera: no processo que levou a criação de Shadow of Fear, houveram alguns percalços que acabaram sendo para o bem; música nova, inspirada na velharia e com equipamentos daquele período tão surrealista.

Colagem minimalista e experimental à altura do clássico Red Mecca, de 1985. Discaço.

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4. U96 / Wolfgang Flür – Transhuman

O dizer do  fechamento envolvendo dois pilares germânicos da esfera eletrônica? De um lado, o duo U96; ases do techno, responsáveis pelo clássico Das Boot, de 1992; do outro, ninguém menos que Wolfgang Flür, conhecido por integrar o Kraftwerk entre 1973 e 1987, ou seja, no período onde a falange pioneira mais se desenvolveu musicalmente.

Mais que juntar o melhor dos dois mundos, Transhuman  é um sinalizador perfeito para navegantes de primeira viagem no som que se fazia nos anos 80 e 90, e ainda soando atual.

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3. Ryan Cohan – Originations

Estadunidense de nascença, este pianista de mão cheia se inspirou nas suas raízes jordânicas para compor o grande momento de sua discografia.

Originations é jazz, mas voa livre sobre terrenos eruditos, étnicos e cinemáticos,  induzindo o ouvinte a uma série de sensações, já que o mote é apresentar algo diferente do status quo do gênero.

Aqui, Ryan Cohan pode estar  figurando a terceira posição, mas em um ranking jazzístico, não há dúvidas que sua a medalha de ouro seria certa, dada as inconscientes palavras de ordem no decorrer das músicas: inspiração e inovação.

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2. Nicolas Godin – Concrete and Glass

O duo Ambient Pop francês Air se encontra em hiato discográfico desde 2014, ano do lançamento de Music for Museum, mas uma de suas mentes criativas esteve bem ocupada, registrando este fantástico terceiro disco cheio, onde explora novas possibilidades sem deixar suas características métricas (e vocais) quando ataca ao lado de seu parceiro sônico Jean-Benoît Dunckel.

Para esta feita – e que inclusive contribuiu para a França abocanhar a medalha de prata – Nicolas Godin incluiu participações de nomes como Alexis Taylor (Hot Chip) e Cola Boyy. Belíssima peça downtempo/synthpop!

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1. Working Men’s Club – S/T

A medalha de ouro vai para o Clube dos Trabalhadores de Manchester! E sem peixada e nepotismos afins.

Não é nenhuma novidade que na chegada do novo milênio – hoje já nem tão novo assim – 9 entre 10 bandas da esfera indie flertavam com os anos 80, em especial New Order. Mas neste caso, as influências foram além, inclusive no modo singular ao mesclar disco, synthpop e “quadradices” do quilate de Devo.

Comandado por Sydney Minsky-Sargeant (vocais, guitarra, programações), Liam Ogburn (baixo), Rob Graham (guitarra, sintetizadores) e Mairead O’ Connor (guitarra, teclados, vocais), o álbum de estreia destes ingleses não só veio para ficar, como para balançar o cenário pós-punk, que por natureza, é reto.

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