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Amen Jr – Buraco no Tempo

Enquanto uns fazem refresco, outros focam no extrato, aqui, personificado na década 80

Por Luiz Athayde

Após uma dose forte de chá de cadeira (pela espera), saiu o novíssimo trabalho do Amen Jr. E, antecipando as linhas finais, valeu a pena.

Buraco No Tempo marca a estreia oficial da banda com era embrionária em Brasília, há pouco mais de dez anos, quando atendiam como Salzband; formação oriunda de um ministério de louvor da igreja Sara Nossa Terra. Alguns lançamentos depois, mudam para o atual nome,  editam o ótimo Sonhar e Viver, que, dito acima, ficou para trás.

Também, pudera. O ano, ao menos em teoria, é 2022: outro momento, outra formação, novas vivências. Uma delas foi a pandemia do Covid-19, que mexeu psicologicamente com todo mundo, incluindo artistas da esfera musical.

Amen Jr pelas lentes de Hugo Toni

Reconfigurado com Ulysses Melo (vocal/guitarra), Carlos Bezerra (guitarra/synths) e Gabriel Eubank (bateria/programação) – e o baixista/ synths, Gustavo Ferraz que voltou após o processo criativo/gravação em uma casa alugada no campo –, integrantes residentes em diferentes partes do país, a formação converteu suas ânsias, medos, incertezas, alegrias e outros sentimentos potencializados com o confinamento, em 13 faixas inspiradas, mas carregadas de muito suor.

Todo o processo de produção leva a assinatura do grupo, juntamente com as mãos de Lucas Silveira (Fresno). Na engenharia de gravação, Isaac Câmara e João Milliet, que também ficou responsável pela mixagem ao lado de Mat Mainhard e Dani Mariano (assistente de gravação com Du Torpedo), todos em faixas distintas.

Nesse ínterim, alguns singles realmente fortes viram a luz do dia, e davam, de formas diferentes, pistas de como o álbum soaria. Na verdade, a perspicácia dos caras aparecia a cada música lançada. E independente das nuances e referências, o prisma é somente um: a década de 80. Tem pop radiofônico, sintetizadores nas alturas, groove a perder de vista e até mesmo escorregadas pós-punk sem dever absolutamente nada aos atuais nomes gringos.

Já na intro de “Mundo Distante”, eles mostram, talvez sem perceberem, que estão anos luz da bolha “humana”, por assim dizer, especialmente no que diz respeito aos temas; música para todos, independente de crenças. “100desespero” segue mais ou menos a mesma linha new wave da abertura, mas trazendo mais volume, peso e um refrão que, não à toa, foi um dos aperitivos previamente compartilhados.

A fim de alinhar com a saída do disco da fornalha, “Passou da Hora” ganhou videoclipe dirigido por João Moura, mostrando a banda simplesmente seguindo em frente ao desenhar: “… passou da hora de dizer adeus a todas as coisas que não fazem bem mais pra você”. Musicalmente, é como se Moti Special tivesse voltado às atividades para assinar a trilha sonora de um longa de ação. “As Coisas São Reais” é outra que revela a amplitude da década preferida do quarteto, aqui com o peso do europop de nomes como Michael Cretu e Hubert Kah.


Ainda que cerebral, é inegável o talento de Ulysses Melo como letrista. “Hoje Pra Sempre” é um dos exemplos mais simples, diretos e ‘na cara’ de passar uma mensagem clara ao ouvinte e ainda soar bem. Aliás, o que você está fazendo agora?

Na faixa 6, uma deliciosa confraternização sônica entre Dominó e New Kids On The Block com “Você Me Faz Tão Bem”, enquanto “Voltar no Tempo” surpreende como uma balada indie com traços de psicodelia via sintetizadores. E por falar em surpresa, “Justo Agora” chega totalmente acústica; Amen Jr nu, mas nada cru.

“Man On The Moon” é quase que uma espécie de abre alas progressivo para uma salada de referências que vão de Michael Jackson  – “Speed Demon” e um assobio para “Beat It” –  a Peter Gabriel na “Mysterio”. Impossível não se render ao seu balanço. Caminhando para o desfecho, devo dizer: é certo que se fossem contemporâneos de Ritchie, Egotrip e RPM, Ulysses e cia teriam cadeira cativa em programas como Globo de Ouro e o Cassino do Chacrinha. E um dos prováveis hits seria  “Primeira Vez”. Aperte o play e tire sua dúvida.

O coldwave tem lugar e com folga em “Ladeira Abaixo”. Drab Majesty é o nome inconscientemente mais próximo, mas está tudo em casa, tendo em vista que a linha temporal seguida por ambos é a mesma. Grande faixa. Por fim, “Espelho”, a cereja do bolo. O título já subtrai qualquer tentativa de explicação, mas por se tratar de uma resenha, especialmente para você que ainda não teve contato com a música destes jovens, é o Amen Jr na sua essência, explorando um frame de inúmeras possibilidades que o universo oitentista proporciona no âmbito sônico.

Se fosse “só” isso, já estaria de bom tamanho. Afinal temos a junção de talento com trabalho pesado. E claro, o principal: excelentes composições. Com justiça, o registro de estreia do Amen Jr, já pode ser considerado um dos melhores álbuns de 2022, porém, competição não é muito o nosso forte, e sim o modo “Massariano” de indicar sons. Buraco No Tempo é o tipo de álbum que merece ser reverberado pelo fato destes quatro entusiastas terem canalizado suas energias no extrato dos anos 80, e não simplesmente feito um refresco genérico do que já vem sendo feito há boas décadas. Discaço.

Ouça o álbum na íntegra abaixo:

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