Volapuque – S/T

Volapuque – S/T

Estreia discográfica de uma “anti-banda” que luta para criar seu próprio idioma

Por Luiz Athayde

O Volapuque já não é mais uma novidade nas páginas virtuais desta mídia, mas para muitos consumidores de música digital, o grupo capixaba ainda precisa ser descoberto.

Na contramão da atual cartilha de divulgação, Sandro Juliatti (vocais, efeitos), Danilo Ferraz (guitarras, sintetizadores), Guilherme “Chapolin” (baixo) e Rochester (bateria) se lançaram como uma banda ao vivo para promover o autointitulado álbum que só estava disponível no formato físico.

Vindo de uma série de apresentações pelo circuito local, agora como um quinteto (o talentoso Cassiano Jesus assume o synth, enquanto que o camisa 12 Pedro “Turtle” comanda temporariamente as baquetas), o céu é o limite quando se trata de criatividade nas improvisações em seus shows carregados de energia; cortesia do background da trupe, que possui histórico com outras bandas, como Valvulla – pré-Muddy Brothers, com Danilo nas quatro cordas – e Mukeka di Rato, do vocalista Sandro, ainda em hiato indefinido.

Sandro, Turtle, Danilo, Cassiano e Chapolin: Volapuque

Já em estúdio, a própria banda assinou a produção, juntamente com o velho de guerra Dodas Bianchi, também baterista do Silence Means Death, nome jurássico do perímetro capixaba.

Mesmo enfrentando uma série de problemas técnicos que envolvem essencialmente certa “má vontade da inteligência artificial”, a banda conseguiu, com muita garra e pouco dinheiro concretizar o tão sonhado debut de influências mil.

Mas todo o plano rudimentar de mote lo-fi se esvai logo nos primeiros minutos do play. “Eu (Maiakówski)” é vento sul orientado por sintetizadores, indicando o nível de umidade sônica na  tempestade literária comandada por Sandro.

Cautelosa e escorregadia, “Lodo” é a resultante de um casamento entre o baixo de Guilherme e os contratempos de Rochester, desenhando todo um clima de suspense na composição. Aliás, más línguas dizem que o espírito de Tom Zé paira sob essa canção.

“Fluxo” é presença garantida nas apresentações do grupo. Com os remos em descanso, esta faixa serve como um pano de fundo quase etéreo para o “spoken word” – técnica perfeita para quem não é, digamos, um Julio Iglesias –, do vocalista, que se perde em devaneios marítimos.

Pós-punk até a medula, “Esboço” é uma perfeita simulação de um papo entre Gang of Four e Modern English, em uma roda de boteco feita no saudoso Bar do Vantuil, nas entranhas de Vila Velha.

Por outro lado, “A Curva” mostra que não existe limites quando o assunto é inspiração dentro do território nacional. Em um cativante “frevo new wave”, a ordem é viajar no próprio experimento e se der certo… mas deu, e muito.

O cenário perfeito para a subsequente “Chovendo Querosene” seria um mundo pós-apocalíptico visualizado a partir dos anos 1970, mas como o zeitgeist, de certa forma demonstra tais traços, esse lamacento Black Sabbath com sutis traços de psicodelia vem a calhar.

Agora, o ponto alto. Não tenho dúvidas que se Ian Curtis e cia tivessem composto “Wilderness” no Brasil, numa manhã de domingo naqueles quiosques de Coqueiral de Itaparica, ela sairia como “Amanheceu”. Envolvente do início ao fim, é a faixa que mais captura o espírito da banda ao vivo.

Quem viveu o período mais efervescente do hardcore capixaba entre os anos 90 e começo dos 2000 sabe, de cor e salteado que a cena norte-americana foi uma dominante no espaço geográfico que compreende o eixo Vitória-Vila Velha.

Dentre as vertentes (emo, post-hardcore e afins), a máxima era o Fugazi – que inclusive tocou em Vitória naquela época –, uma das grandes influências do Volapuque. E a trilogia seguinte, “Erro”, “Travessia” e “In-Tensão/Mulher Maravilha” são os maiores exemplo disso; melhor: reprocessado para o agora, readaptado para a realidade brasileira. Não à toa, o álbum é encerrado com a frase: “Vou vender o meu pé pendurado no pregão! Fim da canção.”

Assim como o padre católico Johann Martin Schleyer, em 1878, criador do idioma “Volapük”, o que esta banda faz é tenta gerar sua própria linguagem, seja por suas conexões com a literatura, o baião, o Fugazi de Ian MacKaye ou simplesmente a realidade que os cerca.

O tempo vai dizer se irá se tratar de mais um esboço como tantos nomes desta periferia geográfica e cultural da Região Sudeste, ou se seguirão o fluxo criativo, como uma anti-banda, em meio a tantos “x” e “gues” do status quo lacrativo. Bela estreia.

Ainda:
+ A capa do registro foi feita em Belo Horizonte e conta com autoria do fotógrafo e produtor cultural do Matilha Punx, Vitor Siqueira; já a edição de arte quem assina é Renato Just, baterista do Muddy Brothers.

Ouça Volapuque no Spotify:

O autointitulado álbum também se encontra disponível no formato digital e físico (CD) no Bandcamp oficial do grupo. Acesse aqui.

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