Você Precisa Ouvir: Kiethevez – Opium (1997)

Você Precisa Ouvir: Kiethevez – Opium (1997)

Fantástico degelo eletrônico diretamente da terra do Abba e do Death Metal

Por Luiz Athayde

Estamos caminhando para o desfecho de mais um ano e nenhum cientista sônico tomou a frente de alguma pesquisa a fim de descobrir se há, de fato, alguma coisa diferente na água que banha os países nórdicos.

Em especial, a Suécia, que ao longo da história nos presenteou culturalmente com ases em todas as esferas artísticas; de Ingmar Bergman no cinema à Jan Johansson na música. Esta última, a mais prolífera no que diz respeito a projeção mundial.

Nos anos 1990, destaque para a explosão do death metal com Entombed, Dismember, Hypocrisy e os herdeiros radiofônicos do lendário ABBA nas pistas de dança Ace of Base. Já no subterrâneo eletrônico a coisa também andou bem movimentada, apesar de modesta em relação às bandas de orientação guitarrística. Do obscuro Poupee Fabrikk no EBM ao bem sucedido Covenant no Future Pop, temos (até hoje, diga-se) sentados na fileira do meio da sala Kiethevez com seu seminal segundo álbum Opium.

Kiethevez

Formado no fim da maravilhosa década sônica de 80 por Tomas Amneskog, Per-Henrik Petersson, Jesper Palmqvist e Jörgen Falmer, esse quarteto havia soltado até então, apenas o cassete Undressed Confessions, em 1991 – a última vez que este achou uma cópia para venda no mercado de colecionadores o valor ultrapassava 600 doletas; raridade é pouco – e o debut em longa duração Three Empty Words, em 1994; por sinal, um delicioso pastiche de Information Society embebido por Pet Shop Boys.

O segundo “período” registra, digamos, a formação de caráter dos suecos de Gotemburgo. Gravado em agosto de 1997 no quintal de casa pela própria banda no Coeur Noir Studios, Opium é synthpop de doutrinação depechista, incluindo certa elegância estética na preparação para o fim do milênio…

O nomeado carro chefe “Can’t See This” foi um dos singles a ganhar produção videocliptica disponível por um bom tempo no site da banda…

 | Linha do tempo pessoal: era começo de dois mil e alguma coisa e o famoso Youtube sequer existia, mas já me encontrava, nas horas vagas, na frente do computador do trabalho, exclusivamente para caçar novidades em vídeo, já que, àquela altura a MTV, ao menos para mim, só faltava ser enterrada. É que eu não conseguia engolir a vigente onda de bandas de prefixo “The” massivamente expostas na emissora. De qualquer maneira, em um belo acaso achei o site da banda com alguns vídeos bem legais. Como já era fã por conferido sua participação em um tributo alemão ao Depeche Mode, a piração foi imediata.|

… Além de fragmentos de mp3 degustados a exaustão até a oportunidade de pegar o disquinho.

Capa do CD single de “Can’t See This” (imagem: Discogs)

Na medida que o álbum avança, o poderio só aumenta. Embora orientado por nuances que lembram New Order, o pegajoso refrão de “Religion” mostra a urgência de uma cara própria, que acaba escorregando, no bom sentido, na grande faixa do disco “The End”. Todos os elementos que fazem uma música grudar na cabeça e não sair mais estão ali. O ano pode ser 97, mas a vibe nostálgica para o fim dos 80 não larga a espreita.

“One Roman Choir” e “Wait” mandam um abraço dos mais fortes ao corpo docente que criou a cartilha intitulada Violator; típica faixa synthpop para festinhas afins.

Dentre as faixas (citadas e) ouvidas até dizer chega na época está “Erina”, por sinal outro single, que inclusive faz lembrar como era o Zeitgeist dos registros discográficos desta esfera ao pedir momentos mais introspectivos.

Mais um single: “Destinies”. Disparada uma das mais legais do Compact Disc. Groove ultra viciante, clima de chapar a medula e vocais que só ajudam a manter no transe. De mote dark, a irônica “Happy Today” vem com uma intencional batida de início de década, como se o atraso para eles fosse apenas um sinal pessoal de atemporalidade. Explicando melhor, Soul 2 Soul já tentava outros flertes. 

De volta a introspecção, “Holy Water” abre passagem para “Seems So Easy”, em uma nova viagem ao universo dos refrãos pegajosos que esse gênero tanto pede. Aliás, obrigado.

Adentrando em um terreno mais atmosférico, “Off the Wall” e “Make Me” vão além de um típico encerramento de disco. Intencional ou não, aqui a banda deixa um fio “solto” para o subsequente registro, que só iria sair do forno 11 anos depois.

Inovar fazendo synthpop não é uma tarefa fácil, tendo em vista que há anos medalhões do gênero circulam por aí, e mesmo os que só ganharam notoriedade com pouco mais de um registro, ostentam, no mínimo terem feito parte da era inicial da música eletrônica como potencial pop.

Em sua segunda prova sônica, o Kiethevez fez nada mais que interferir musicalmente no que já havia sido feito e até mesmo regurgitado, se aproveitando do aval da despretensão mercadológica e claro, de fazer música pela música (não podemos esquecer que morar na Suécia ajuda, e muito), por diversão, enfim, nada que seja envolta a pressão.

Não à toa já vamos para 12 anos sem sinal de vida do grupo, exceto por algumas insossas postagens em sua página oficial no Facebook há mais de, sabe-se lá quanto tempo.

Você precisa ouvir Opium por ser um belíssimo e empolgante resumo autoral do que de melhor rolou no synthpop feito entre a segunda metade de cada década citada; por sua atmosfera, criatividade e atitude deveras kamikaze de se inserir na grossa e volátil camada do mainstream.

Só é um registro obscuro devido a falta de afinco da rapaziada (ou seria do carimbo Different Drum?) ao divulgar este petardo, por que um dos melhores da classe de 97 Opium é com folga.

Can’t See Info:

+ O tributo alemão em questão citado no “parênteses” é o ‘Reconstruction Time’, lançado sob a chancela dos carimbos Khazad-Dum, em 1996. Os suecos marcam presença em uma gravação ao vivo de “Photographic”.

+ O álbum do Kiethevez de 2008 citado acima é o‘Non-Binary’, também lançado pela Different Drum na Europa e Estados Unidos.

+ Primeira faixa a entrar em ‘Opium’, “Destinies” foi gravada em 1995 no Studio 1 e conta com mixagem assinada por Urmas Plunt – assim como todo o álbum.

+ Outros créditos incluem: masterização, por Kenneth Svensson, backing vocals por Jessica Strand, guitarras por Helena Nygren (que também assina as fotos juntamente com Marcus Johansson) e Martin Holmström e a bela capa por Dennis Berggren.

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