Rasha faz estreia bombástica com single onde o “dark” ainda não é o suficiente

Rasha faz estreia bombástica com single onde o “dark” ainda não é o suficiente

Ouça as duas faixas de “I” abaixo

Por Luiz Athayde

As águas de Brasília continuam densas e inspirando a famosa pergunta sobre se há algum elemento químico oculto, que tem feito brotar tantos nomes orientados para a música obscura naquele subterrâneo.

O detentor do provável melhor single da classe de 2020 é o Rasha; duo composto por Caio Lemos e Raíssa Geovanna Matos, criado não após uma sessão ritual em alguma caverna no Centro-Oeste, mas no bar.

Entre copos e ideias, o embrião de mais um ato Darkwave – e outras coisas mais – surgia: “Já tínhamos idealizado um projeto de pós punk há um ano, mas na época não deu certo. Entretanto Caio e eu queríamos colocar em prática tantas referências da cena dark wave e outros gêneros eletrônicos (não algo que esteja em uma só categoria) que a gente costuma mostrar pro outro. Então no bar discutimos sobre o conteúdo das letras, algo que remetesse à dinâmica de angústias nessa cidade cemitério”, contou Raíssa ao Class of Sounds.

Rasha

No single intitulado “I”,  as canções, “Sufoco” e “Sólida” são, regadas a peso, melodias gélidas e vocais carregados de suspense, trazendo com maestria o que nomes clássicos da música obscura fizeram a exaustão; além de lançarem mão da língua nativa, em um honesto lirismo apático, livre de amarras e direcionamentos.

“Eu não aguento mais trepar contigo/Na verdade, eu não aguento mais trepar/Me entediei de tal maneira/A qual só quero escapar” […] “Foi divertido enquanto era novo/Depois virou sufoco”, diz a letra do lado A do single.

A vocalista também comentou a sua pegada na escrita: “As letras surgem de associações livres sobre essas reflexões que atravessam o íntimo dentro de ambiguidades. No início fiquei meio receosa porque o Caio pilhou de fazer todas as letras em português, algo estranho se você for considerar que temos um pensamento muito colonizado em relação à língua. Mas deu certo, não virou algo banal, virou um prazer produzir valorizando nosso idioma, nossos sotaques, que flua numa música que seja menos dominado pelo gênero “branqueado”, europeu.”

Já musicalmente, o multi-instrumentista foi cirúrgico: “Bem, a gente vive num mundo meio gélido né? Então acho que a inspiração vem de todos os cantos que vivemos.”

A arte, em preto e branco, também conta com assinatura do duo, trazendo certo desfoque na logo, como se fosse uma mensagem subliminar com os dizeres: “não possuímos apenas uma etiqueta”.

A colagem traz figuras de American Indian Art, livro de estudos antropológicos de Norman Feder – conexões indiretas com o curta/documentário de 1953 As Estátuas Também Morrem, dos saudosos cineastas franceses, Alain Resnais, Chris Marker e Ghislain Cloquet.

Embora mal tenha saído, “I” vem causando ótima repercussão, o que nos levou naturalmente a perguntar quando sairá um trabalho mais completo, ou ao menos um play estendido. Raíssa Geovanna responde:

“Não há exatamente uma previsão. Estamos respeitando a quarentena e aos poucos estruturando as músicas, que interajam com outros gêneros e que seja bom pra dançar no escuro haha. Recebemos muitas mensagens legais e propostas que mantêm a vontade de concretizar” .

Caio, que também se mantém ocupado com os projetos Atmospheric Black Metal, Kaatayra e Brii completa dizendo que (o vindouro registro) “talvez tenha uns 40 minutos ou um pouco menos.”

Enquanto isso, ouça “I” no Bandcamp.

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